terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O “Manuel Lima”: Um Verdadeiro Lince Sagrado

No ano de 1948, quando a família de Francisco Bernardino, concentrava a propriedade de muitas terras da região Noroeste do sertão cearense, entre as mais importantes: - Fazenda do Riacho da Lapa, Fazenda Livramento, Fazenda São José de Lontras, Fazenda do Mulungu, Fazenda de São Benedito, Fazenda do Rapa Canela e Fazenda da Matriz, - vivia o famoso “Manoel Pereira Lima”, um dos quatorze filhos dessa prestigiosa família. Nesse sertão ele nasceu, exatamente na Fazenda Riacho da Lapa, e entre os bravos nordestinos se criou.

Por que o “Manduca Lima” recebeu esse insólito apelido? Manducar no linguajar sertanejo significava a bravura de um lince no momento de devorar sua presa. E os linces, ágeis felinos de orelhas empinadas que habitavam várias partes das fazendas de Francisco Bernardino, há muitos séculos foram folcloricamente considerados animais privilegiados por sua visão de alta acuidade, o que lhes permitia “enxergar bem a grandes distâncias, tal como acontece com as aves pescadoras e as assim chamadas "aves de rapina", cuja acuidade visual é de 28 segundos de arco, o dobro da nossa visão, que não passa de 1 minuto de arco.

O “Manduca Lima”, então tido como verdadeiro lince, porque enxergava mais longe do que os demais irmãos, capatazes e empregados da fazenda, por cuja vista penetrante dele, diziam os antigos, que enxergava através das paredes, geralmente se dedicava a tomar banho nas cachoeiras que caiam das serras, nadava nos açudes das fazendas e no rio Jatobá. Diariamente, também amansava várias raças de cavalos selvagens, derrubando bois agressivos à unha, justificando tal crença local. A noite, sob um manto de estrelas, ele gostava de ouvir estórias na varanda da grande casa que dava para o um enorme açude de águas cristalinas. Nas manhãs, quando o dia clareava, com a chegada do sol morno, ele ficava maravilhado com os milhares de grandiosos coros de pássaros albergado nos abacateiros, mangueiras e goiabeiras, essas últimas com frutas vermelhas e cheirosas.

Esse “Manduca Lima” foi logo caindo nas graças de Francisca, filha de João José de Lima, o grande “Dão Rosário”, um rico comerciante de tecidos, que estava estabelecido no Município de Ipueiras-Ce, detentor de uma fazenda denominada “Papagaio” e outra chamada de “Pé do Morro”, o qual se destacou como vereador do município, por ter semeado os principais princípios da democracia no município. A criação dos sete dos dez filhos de Manoel Lima, de Rapa Canela (em 1949) a de Ipueiras (em 1960) ocorreu quando essas famílias começaram a destacar-se pela criação de gado, substituindo lentamente essa cultura em virtude da relevância da plantação de feijão e algodão, que em meados de 1960 começavam a decair, talvez inexoravelmente. Essa tendência, que consumiu quase a totalidade das propriedades das duas famílias ao longo da História passada, parece ser uma lei natural, que provavelmente continuará a ocorrer ao longo de toda a História futura, constituindo ciclos que os economistas denominam "a espiral da História", hoje, já comprovada e tão bem esmiuçada e esquematizada na história das duas famílias.

O objetivo do Manoel Lima era o de possibilitar a todos os filhos o saber. O que era importante é a educação escolar, a ciência e como eram feitas as descobertas científicas, já que em suas “estórias” contadas na calçada de nossa casa, sob o luar do sertão, esmiuçava como ninguém o conto do “Pavão Misterioso”. O conto de meu pai se distinguia geralmente entre todos os contos das pessoas daquela redondeza. Era a realização de experimentos para que os leigos e analfabetos como ele os ouvissem e os letrados como o sacerdote, prefeito, juizes e professores se surpreendessem com a grande sabedoria do "Seu Lima". Então ali estava explicado porque era chamado de “Manduca”. O verdadeiro lince, porque enxergava mais longe do que os demais mortais de sua localidade e convivência.

Os grandes sábios da família de meu pai, geralmente, dedicavam-se a vários campos do saber autodidata. Nesse contexto, ninguém ultrapassou o grande Manoel Lima, justificado pela sabedoria quase completa a respeito de sua incomparável obra. Meu pai ensinava com maestria todos os familiares a evoluir na vida para uma sociedade moderna. Portanto, é quase impossível imaginar como seria o nosso dia-a-dia, hoje, sem o exemplo de vida do "Seu Lima".

Essas qualidades foram muito importantes após a decisão de deixar esposa e sete filhos no Ceará e aventurar-se na construção da nova capital do país, alterando-se radicalmente as finalidades dos prognósticos para quem havia nascido para ser um trabalhador rural. O Grande Pai, Manoel Lima, talvez o mais completo Chefe de Família dos tempos modernos, começou sua vida primeiro como trabalhador de fazenda nas cidades de Marílha e Mirasol, São Paulo, e em seguida como pedreiro no “túnel Rebouças”, Rio de Janeiro, após idas e vindas, tornou-se balconista de um barzinho do seu sobrinho Fransquin e, como tal, encantou os seus clientes com a sua palestra encantadora, fez muitos amigos e estudou todo o tipo de cultura brasileira. Durante o atendimento dos freqüentadores, conheceu informações sobre o mercado de trabalho em Brasília, o que ajudou a arranjar uma colocação como servidor público dos Correios e Telégrafos.

Hoje, pela sua decisão sábia e muito importante, descobrimos investimentos muito rentáveis para os filhos, netos e bisnetos. Gloriosos tempos do Manoel Lima, sem dúvida. Memoráveis experiências do ágil e carinhoso companheiro da D. Francisca, pai corajoso como um lince de orelhas empinadas que habitam nossos corações. “Seu Lima” foi em muitos anos o herói de seus privilegiados familiares. Isso porque, tinha uma inteligência inigualável que foi beneficiada por sua visão de alta acuidade, o que lhes permitiu enxergar bem e resolver os grandes problemas dos filhos, netos e bisnetos.

Meu pai, carinhoso professor da vida familiar, que propagou o bem viver na fazenda Riacho da Lapa, nos sítios do Rapa Canela e Pé do Morro, bem como, também em Ipueiras, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, aprendeu muita a cultura geral de nosso país . Sem dúvida, aprendeu a ler e escrever muito bem e aperfeiçoou sua fé ensinando como poucos a palavra de Deus. Descobriu o segredo de levar as pessoas à integração comunitária, que ele chamava de "Momento Sagrado no Planalto Central", demonstrando a sua existência no que pregava, ele fascinava os que lhe rodeavam, sendo o melhor exemplo de um perfeito comandante da Família Lima.

Ele nos permitiu apresentar nossa vida à honestidade, a ética, a dignidade e o respeito às Leis do Criador. Meu Pai injetou nas almas de seus descendentes as melhores energias positivas do universo, assunto que eu havia descoberto, ainda, nos tempos de minha infância e chamava de "água santificada", não sei por quê. Assim, hoje ao pedir nos restaurantes o precioso líquido, chamo de "água do Sagrado Pai". E depois, “verifiquei que era bom para iluminar minha vida". Assim, para usar a linguagem bíblica, assunto de que “Seu Lima” era profundo conhecedor, constatei que Deus concedeu ao meu grande pai: a graça de ele aceitar com serenidade aquilo que não podia modificar; a coragem para ele mudar o que devia ser mudado(e realmente ele mudou) e, ele sabiamente distinguiu uma coisa da outra.

Nas suas andanças por todas as quadras de Brasília, como carteiro, descobriu que o campo das Relações Humanas é da mais alta relevância, tendo em vista o grande conhecimento adquirido. Como se isso não bastasse, tornou-se um importante membro da paróquia N. S. Consolata. Foi um dos fundadores da Ordem dos Vicentinos e terminou sua passagem de vida, aqui na terra, como personalidade da mais cobiçada cátedra de ser humano santificado por Deus.

O Universo é uma grandeza. "Seu Lima" é outra grandeza. Assim: O Universo é uma grandeza tão grande como "Seu Lima"também o é. No dia 23 de dezembro, pertinho da data em que o Filho de Deus Nasceu na terra, meu pai também nasceu para o Paraíso Eterno. "'Manoel Lima, quando na terra estava, era simplesmente um ser humano maravilhoso, um instrumento de Deus para todos nós, que Deus te abençõe muito, quero te agradecer por ter o privilégio e a graça de ser seu filho. Meu Pai Foi e será sempre uma grande benção de Deus.

Obrigado a todos pela atenção,
Valner pra Valer.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Esplêndido, magnífico texto!

    Parabéns ao Valner pra Valer, aos filhos, filhas, netos, netas e bisnetos do "Seu Lima"!

    Vovô é eterno...!

    Abraços,

    Léo

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  3. Poxa, Valner, quando pedi pra vc escrever algo sobre o papai não pensei q vc fosse tão longe... bom, que olhar de lince! Acho até que essa mistura de biografia com poesia, na verdade foi um resgate de lembranças que estavam até meio que escondidas na minha memória. Talvez na de outras pessoas. Valeu, irmão, pela presteza e resgate da história do papai. Ainda que o Livro não fique pronto para o dia 23, mas foi uma grande contribuição! (mas, ele ficará pronto, nem que seja para o Niver de Brasília, que ele amava tanto!) Ei! Parece q consegui postar!!!

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  4. Tio, que texto maravilhoso!

    Essa é uma ótima biografia do Vovô, parabéns!

    Vou levar esse texto sempre em consideração daqui para frente, pela fidedignidade das palavras!

    Obrigado pela maravilhosa contribuição!

    Abaços do sobrinho: Júnior

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