quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Olhar

A passos rápidos, com a farda dos Correios e a bolsa cheia de cartas, lá se ia o papai tentar um acordo financeiro com o Objetivo-SP-B. Com certeza fez uma pausa no trabalho, já que era de manhã. Eu, do lado de cá, o via através da cerca, era a hora do intervalo do 3º ano. As escadarias lotadas de estudantes comendo hambúrguer com refri. Aquele cheiro de misto quente vindo da lanchonete, os halls fascinantes e os bate-papos me levavam a uma sensação de “não é bem essa a minha tribo”, naquele instante ao menos, digo de passagem: era raro eu fazer um lanche ali (no have money!).

Ah, eu quis sair correndo e abraçá-lo, lembrei de quando eu criança ele chegava do trabalho, me abraçava e rodava comigo. Mas dali ele não me via, só eu tive o privilégio de o ver de longe. Seu Lima em mais uma empreitada rumo a conversações “promissórias”. Como eu ia dizendo, tinha bedéis por perto, então fiquei ali, “pregada” na cerca acompanhando os passos dele. De maneira decidida e rápida ele atravessou da 712 para a 912. Observei, seus cabelos pretos ainda, uma mecha caindo na testa, postura bonita de caminhada (ainda que a bolsa de cartas o fizesse pender pro lado direito), farda cor caqui e sapatos pretos; o carteiro, sempre em frente, frente às questões pra resolver, era ruim de ele desistir, hein!

Pendências não eram a praia dele. Lembro de quando ia aos “armazéns” da vida, no Mineiro... Negociar com o dono, era fechando uma conta e abrindo outra; ainda assim tinha dias de perrengue, em que eu e irmãos ficávamos na janela torcendo pro papai surgir na ponta da “Planalto” trazendo pacote de arroz, banana, pão... Era muito legal, a gente descia a escada correndo; então ele vinha com uma caixa no ombro, eu e Francisco abraçávamos as pernas dele e ele dizia ofegante “peraí...” com aquele semblante bonito, e expirava só pela boca como que querendo dizer “cheguei!”, provavelmente após esperar muito o TCB(ônibus).

O papai tinha uma coisa marcante, era um negociador de primeira e tinha que ser olho no olho, num tempo em que a palavra de uma pessoa valia muito, e deveria ser honrada. Realmente uma marca dele, encarar os problemas, conversar, tentar, esgotar esforços. O combustível dele não podia ser outro, era a “tal” da Fé, que vez por outra, ele pedia a Deus em alto e bom som. E não adiantava dizer pra ele que tal coisa era improvável. Hoje, recuperando fatos na memória, acho graça do Manduca (eu brincava muito, o chamando assim). Falava “Manduca, a Celina ligou de novo”, e ele bem rápido dizia “O que ela quer comigo?” eu “sei lá, sobre um carnê da Consolata...” ele “não fiz trato nenhum com ela”, “coitada da Celina”. Cara, eu e a mamãe caíamos na risada.

Mas, ó, ele era intuitivo, e isso é algo de outra ordem; ele via algo mais, além do óbvio, por isso se lançava, e mergulhava mais fundo.

Pai, sementes continuam brotando, preparou bem o solo hein! Seu sorriso, pra sempre, seu olhar no horizonte, sempre buscando no Infinito as soluções.

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Observação: Naquele momento, de contexto pessoal, o Objetivo me causava estranheza, porém, num contexto amplo, amei estudar lá, fui descobrindo tantos colegas, amigos incríveis, diferentes, legais! Quanta saudade. E os professores? A cidade toda os admirava. Sério! Por serem irreverentes nas aulas, caras incríveis!

Maria Edith - 17/12/09

Um comentário:

  1. Que texto lindo, tia Edith!

    Dá até para imaginar a cena, no Objetivo...!

    Parabéns pelo maravilhoso texto!

    Beijos!

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