quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

As graças do papai



Adorava o jeito como o papai se expressava, começando por suas analogias, metáforas e outras figuras de linguagem. Ainda na nossa adolescência, o Zé Romildo tinha um amigo bem esguio, que sempre pintava no pedaço. Seu Lima, ao vê-los chegar da janela do Bloco C, comentou com o pessoal de casa: “lá vem o Zé com o Pernas de Grampo". O Santos, amigo do Valner, que era negro e que também sempre estava conosco, tímido que só ele, papai o chamava de São Benedito. Por sua vez, a senhora roliça que vivia na janela do quinto andar do prédio em frente ao nosso, ganhou o apelido de Mãe da Lua.

Mas era quando estava internado que a inspiração do Seu Lima aparecia de forma mais especial. Não sei se por impaciência ou por querer levar a situação pelo lado positivo, mas o fato é que nesses dias ele não deixava as intervenções sinceras de lado, misturando suas dores com um humor estilo “sem querer querendo”. De tempos em tempos, precisava passar por uma bateria de exames, o que o deixava ligeiramente inquieto e, claro, sem meias palavras.

A primeira passagem que me vem à cabeça é aquela na qual o enfermeiro, que tentava aplicar, sem sucesso, uma injeção no seu braço, foi logo interrompido por ele: “filho, vá chamar alguém que saiba fazer esse serviço”. O jovem, muito bem educado, respondeu: “Seu Lima, não há necessidade, logo vamos conseguir terminar o exame.” Mais algumas agulhadas em vão e o papai replicou de forma ingênua: “moço, chame um médico, por favor, o senhor não tem culpa de ser incompetente”.

Papai era muito puro. Entre idas e vindas, passamos por momentos marcantes em quartos de hospital. Fizemos até um rodízio no qual Dona Francisca, filhos e netos, tiveram a oportunidade de passar bons períodos do dia ao seu lado. Certa vez, ele me pediu para fazer uma massagem nos seus pés - Seu Lima adorava esse mimo... Nesta época, papai sofria bastante com frequentes faltas de ar e no dia anterior havia deixado todos preocupados em consequência de uma daquelas crises, por isso estava bem alerta para acudi-lo se algo acontecesse. Sereno, me pediu e rezamos o terço juntos, que horas mais tarde virou rosário e, caso exista outra denominação para orações adiante, me digam; porque rezamos até estas.

Papai, com sua brilhante intuição, entendia o meu sentimento e tentava me reconfortar ao máximo. Ali ficamos nós dois, por longa data, dando forças um ao outro. Massageando os seus pés, sentia seus dedos esticados por conta do reumatismo, mas sabia que, apesar dos pesares, estava bem relaxado. O seu sorriso não mentia. Seus olhos brilhavam e, como namorados, se despediram um do outro lentamente, até se fecharem por completo ao adormecer. Estava em estado de graça. Lindo, sereno e em paz.

Ceiça e Dudu – 18/12/09

2 comentários:

  1. Hahaha....que texto magnífico, tia Ceiça!

    A senhora e o Duduzão mandaram bem, relembraram histórias lindas que não poderiam passar batidas...

    Um saudoso abraço a vocês!

    Léo e Mari

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  2. Lindo e emocionante texto!!

    Beijos

    Luciana Lima

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