sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Esse é que é o tipo!

Outro dia estava eu a refletir sobre atitudes. Eu pensava como há pessoas que sabem agir no momento certo (e talvez nem se dão conta que são assim), por uma iluminação, ou por algo que vem de dentro delas, e espontaneamente se lançam para agir. Essas são pessoas naturalmente de atitude.

O Seu Lima era um profundo admirador das pessoas de atitude. Ele sempre dizia que gostava de gente de ação. E por talvez não conseguir exprimir exatamente o que queria dizer, quando presenciava alguém confiável ou que admirava por ser trabalhador, ou de coragem, ele simplificava com a expressão: “Esse é que é o tipo!”

Mas, de atitude mesmo era ele, o Seu Lima.

Lembro de alguns fatos que presenciei e que me surpreenderam por denotar coragem e decisão. Um deles foi quando estávamos indo à Missa num domingo de manhã, a pé, e vimos um homem empurrando uma carroça, e, por alguma razão (ou sem razão) voltou-se enfurecido contra o garoto que o acompanhava ( parecia ter entre sete ou oito anos).

O carroceiro esbravejava e gritava palavras de baixo calão com a criança, até que, não satisfeito com isso, resolveu lançar mão de um cabo de vassoura e bater na cabeça do menino.

Seu Lima, ao presenciar a cena não vacilou. Num só fôlego e munido de toda autoridade, gritou: “Alto lá! Pára por aí!” O homem, literalmente paralisado na sua ação, voltou-se surpreso para o nosso lado e parecia não acreditar no que estava ouvindo. Mas, logo se recuperou e gritou exasperado por ter sido tolhido no meio do seu ato violento: “Quem é o senhor?”

Meu pai respondeu: “Eu sou também um pai de família e não vou permitir que o senhor faça isso com uma criança.”. Mas, o homem voltou ao seu estado de ira e berrava mais dizendo que ele não tinha que se meter, pois o filho era dele e poderia fazer o que bem entendesse.

A essas alturas eu já olhava para os lados procurando alguém que pudesse nos ajudar, caso o homem resolvesse transferir o foco da sua ira. E realmente, o carroceiro se dirigiu a passos largos para o lado do meu pai. Porém, nesse momento o Seu Lima o advertiu com voz forte e firme que ele não desse mais nenhum passo à frente pois se tentasse fazer qualquer coisa com ele ou com o menino que o denunciaria ao Juizado de Menores quando poderia até perder o direito à guarda do filho. E aproveitou para falar que um dia aquela criança poderia ajudá-lo quando crescesse. Que criança é Bênção de Deus.

Por incrível que pareça o carroceiro pareceu refletir e se voltou para o garoto, dizendo: “vambora meu filho, que tem muita gente se metendo aqui”, e, segurou a mão do menino e o colocou sentado na carroça. E saiu.

Eu fiquei algum tempo calada pensando na habilidade que o meu pai teve diante do pouco tempo para persuadir o homem. Sei que ninguém pode garantir que depois ele não bateria na criança. Mas, naquele momento, diante do impacto causado pelo poder, não somente das palavras, mas também da decisão, ficou em mim a sensação de que aquele carroceiro, na sua ignorância e truculência, talvez tenha refletido pela primeira vez na vida sobre a possibilidade de perder o direito ao filho, e talvez isso o tenha paralisado.

Sorrio comigo mesma ao lembrar do Seu Lima que, na sua simplicidade, tinha a capacidade de se indignar e tomar atitude com coisas que, talvez, para outras pessoas não merecessem mais que um menear de cabeça, e o prosseguimento em sua caminhada.

Acho que quando o Seu Lima chegou lá no céu, foi recepcionado por um coro de anjos que o saudaram alegremente e em grande estilo, gritando a uma só voz: “Esse é que é o tipo!”

Lígia - 18/12/09

3 comentários:

  1. "Esse é o tipo!"

    Tia Lígia, que texto fantástico! O vovô realmente tinha uma sabedoria e persuasão incríveis!

    O carroceiro deve ter pensado muito, ao travesseiro...

    Parabéns pelas palavras, um grande beijo!

    Léo e Mari

    ResponderExcluir
  2. Tia Lígia,

    Gostei muito de seu texto! Junto com todos os demais, forma uma linda unidade de comunhão e fraternidade. Agora que apresentei a monografia e que estou com o tempo bem mais livre e tranquilo, aproveitei para atualizar-me e ler tanto o blog do vovô quanto o do Léo e da Mari... Estou adorando!
    Um beijão para todos os que participam e acompanham este projeto!

    ResponderExcluir
  3. Linda Mãe,

    muito bom este texto da senhora e interessante no que diz respeito aquilo que o Vovô sempre acreditou e fazia de bom propósito.

    Sou cúmplice que a senhora era muito presente e respeitosa ao seu Lima. Parabéns por ter seguido tantos exemplos maravilhosos que meu Avô deixou.

    Que eu tenha o sentimento de bondade e fé que seu Lima tinha e que tenha sabedoria de construir uma linda família! Aí sim, seria o tipo!

    Beijos, Mãe!

    ResponderExcluir