A tarde escurecia em nuances de azuis (entre o finíssimo azul e o azul-azul). Na 312 Norte, ouvia-se bem o cricrilar dos grilos. Latidos, metálicos e distantes, de cães que dialogavam entre si. Pelas manhãs e tardes, louva-deuses e cigarras e, já nessa hora, vagalumes. O transe épico que inaugurava a noite. Uma nuvem, uma idéia, uma percepção. Ficávamos na janela esperando pelo papai. Muitas vezes, quando meu pai chegava do trabalho, já estávamos todos banhados e cheirosos, com uma roupinha confortável. Esperávamos por novas histórias, relatos de aventuras: os cachorros, os ciganos, as codornas, os ônibus, as mangas. Outras vezes, ele chegava e eu ainda não estava em casa. Então, logo que eu abria a porta, cheirava o meu cabelo e dizia: “Hum... cheirinho de passarinho... Por onde tu andaste? Tu já estavas lá pelas manilhas, não é? Pois vá tomar um banho e depois venha conversar direito comigo”. Ih, caramba... Eu tinha a impressão que o papai sabia onde eu havia andado apenas cheirando o meu cabelo! Ali, próximo a mim, meu pai contava a história do Pavão Misterioso: o cara tirava de uma malinha um engenho que voava (o pavão) e que o levava para o quarto da donzela. Maravilha... Todos ouviam com tamanha atenção que, de vez em quando, fazia-se beliscar a luz das lâmpadas!
Caminhava a passos largos, eu pelejava para alcançá-lo, às vezes me valia disso: ia correndo na frente e, quando ele se aproximava, eu corria de novo. Ele achava graça. Quando chegava o ônibus, me apresentava ao motorista como o seu “secretário”. De um lance só, me fazia voar os três degraus da escada. Uau...!! Ensinava-me coisas como dar e receber dinheiro com a mão direita, calçar primeiro o pé direito, contar o troco (isso eu não podia errar de jeito nenhum), rezar antes de sair de casa, manias que ainda guardo até hoje. Ele tinha um poder mental quando dizia assim: “Cuidado para não quebrar esta jarra, segura direito” e a jarra me escorregava da mão e caía no chão com suco e tudo. Ave Maria... “Eu não te disse bicho mole...” Eu corria sem ter como escapulir. Peia na certa.
Naquele tempo, quando recebíamos cartas, a mamãe esperava o papai chegar para ler diante de todos, em voz emocionada, as notícias que chegavam do Ceará ou do Rio de Janeiro. Eram missivas demasiadamente sentimentais e que me faziam morrer de saudades, remorsos, culpas, sem que eu entendesse direito o porquê sobre tudo aquilo. Porém, certa vez, recebemos um telegrama e, quando se recebia um telegrama, não sendo caso de aniversário, ficávamos aflitos. Acho que havia um código, tipo umas cruzinhas, quando se tratava de morte. Minha mãe esperou o papai chegar e entregou para ele. Pediu que se sentasse numa poltrona. Eu fiquei de frente ao meu pai. Ele abriu, leu, pôs a mão esquerda sobre os olhos, baixou a cabeça e chorou copiosamente a morte do pai. Jamais me esqueci daquele dia porque ali eu aprendi a compreender meu pai como o homem simples que podemos construir em nós, sem torná-lo distante, como um mito. Foi nesse momento que, também, compreendi o seu sorriso largo e meigo.
Íamos juntos, todas as manhãs, abrir a bodega “Direto da Roça”, só ele sabia desarmar os segredos dos inúmeros cadeados e correntes que guardavam a loja. Dizia: “a gente precisa ter zelo com nossas coisas”. Enquanto me punha a trabalhar, ele contava da amizade sincera que tinha quando criança com seu irmão Luiz, motivo de orgulho de suas lembranças, e que sonhava que fosse o modelo da amizade entre os filhos. Abria o jornal e lia de tudo, antes de fazer das páginas meros embrulhos. Não desperdiçava. Gostava de tudo asseado. Tinha o sentido naturalmente ecológico, sem discursos. Era amigo dos carroceiros, dos garrafeiros, dos amoladores de facas, dos jornaleiros, dos sapateiros, dos relojoeiros, enfim, das pessoas que consertavam e reaproveitavam as coisas.
Houve um tempo em que eu, bancário, resolvi morar em pensões na Asa Sul e não sei como o meu pai me encontrava, queria saber como eu estava e dizia: “Tu nem dormiu direito esta noite!”. Tinha o tino certo. Outra vez, eu dava aulas no Colégio Alvorada e a coordenadora, a certa altura do horário, me disse: “Tem um senhor que quer falar com você na sala de professores”. Fui. Ao chegar, fiquei surpreso, porque nem sabia que ele tinha conhecimento dos dias em que eu dava aulas no colégio. Foi logo dizendo: “Tu não tens mais pai e mãe não? Não tomas mais a benção... ê desse jeito... hum...” E balançava a cabeça negativamente. Convidava-me para ir a sua casa porque a “Fransquinha” tinha feito um gostoso almoço. Eu ria, eu reclamava, mas era obediente às suas ordens, beijava a sua mão (direita!) ao pedir a benção e lhe fazia massagens nos ombros. Ele me compreendia. Contava um sonho comigo numa casa branca... Uma pomba que ao voar era Nossa Senhora... Era sempre assim: Era uma vez...
Por: Francisco de Assis Oliveira Lima - 23/12/09

Pô, tio Chico, que texto fantástico!
ResponderExcluirParabéns, eu e a Mari adoramos!
"Cheirinho de passarinho" é ótima...hahaha!
Forte abraço,
Léo e Mari
Que texto fera, tio Chico! Alcançou todo o tipo de lembrança, desde as mais poéticas, até as mais curiosas. Achei mó barato...! Era uma vez, um vovô que brilhava os olhos de todos com suas belas histórias.
ResponderExcluirDudu
Tio Chico!!!
ResponderExcluirQue texto legal, gostei!
Seus textos são muito saborosos de ler!
Vovô, realmente, era um mestre de contar histórias e estórias, um barato!
Sentimos muito sua falta no Natal! Mas pensamos muito em você e nos nossos amados primos!
Quando vamos tomar um gelada?! Será que só no ano quem vem?! Rs!
Abraço!!!
Que belo estilo poético de escrita, Tio Chico! Nota 10 (para combinar com o ano que se inicia)! Uma delícia lê-lo...
ResponderExcluirBjs da sobrinha que deseja um ano excepcional,
Marina
Francisco,
ResponderExcluirQue texto gostoso de ler. Ao falar de seu pai,você fala muito sobre você, sua formação, sua personaliade. É bom porque a gente o conhece mais.
Um beijo,
Noélia
Puxa, Chico! Quanta emoção lê-lo assim...
ResponderExcluirSaudades suas e de seu paizão, Seu Manuel, pessoa adorável!