Escrever sobre o vovô Lima é fazer uma viagem ao interior de mim mesma, é dar um mergulho na alma. Durante os dias destas últimas semanas me propus uma atividade deliciosa... Visitei por intermédio da memória fatos, fotos e feitos do nosso patriarca.
Várias imagens tomaram forma em minha mente e me levaram a construir filmes biográficos, aventuras, romances e animações de cordel. Recordei-me de marcas registradas e da evolução de suas peripécias com o tempo. As lembranças mais antigas são de um vovô forte e cheiroso, de cabelo sempre bem branquinho e penteado, andando com seu robe sobreposto à roupa de algodão confortável, chinelos por cima da meia e toalhas no pescoço em direção à sala de jantar, onde esperava ser servido pela vovó. Quando se aproximava para cumprimentar os netos, roçava fortemente sua barba pinicante contra as sorridentes bochechas infantis. Num sobressalto as bochechas se retraíam e o vovô parecia se divertir muito com a nossa reação. Ninguém ficava incólume à sua provocação.
Lembro-me também do gosto que fazia em deslocar-se por algumas quadras para comprar seu rotineiro pão português. Gostava dele quentinho, caracteristicamente redondo e fofo, em meio a lanches fartos postos ao final da tarde, com a frequente presença de uma tradicional rapadura. Apreciava imensamente a iguaria nordestina. Quando a fatiava em pedaços heterogêneos e irregulares, os oferecia a cada um ao seu redor. E ai daquele que não aceitasse. Tinha forte poder de persuasão: “coma, minha filha, coma. Ara, deixe de besteira.” Mas quando a situação se invertia e lhe oferecíamos alguma gostosura, invariavelmente agradecia e dizia não. Depois disso analisava o quitute, ponderava e dizia “pois me dê um pedaço”, sem medo de voltar atrás e ser feliz. Era gente simples à mesa. Fazia sons e estalidos com a boca, que nem a mais poderosa onomatopéia poderia traduzir à linguagem escrita. Enquanto mastigava, entretinha-se com bate-papos propostos dia após dia pela Leda Nagle em seu programa Sem Censura da TV Brasil.
Em meio a sua rotina, sempre retirava um tempo para visitar-nos. Anunciava sua presença com generosas badaladas à campainha. Eram várias, em sequência apressadamente cadenciada. Vinha, conversava, fazia orações, reclamava da noite mal dormida, convidava para visitas ao Condomínio Verde. Tinha um sorriso lindo, um olhar vibrante, e um jeito de falar deliciosamente cearense. Foi simplesmente uma grande personalidade coroada pelas coisas simples da vida.
Por: Marina Lima
15/01/2010
Querida Marina,
ResponderExcluirQue texto fabuloso! Nossa, você tem o dom da palavra mesmo, hein...Lindíssima publicação.
O Vovô era um homem muito simples mesmo. E essa simplicidade é que o tornava tão ímpar, não é mesmo...
Os pedaços de rapadura sendo servidos pelo Vovô, ah, isso ninguém esquece mesmo, junto com os estalos que ele fazia, enquanto comia... :) "Poix me dê!"
Um beijo enorme e um saudoso abraço!
Léo
Marina,
ResponderExcluirPerfeita foi a sua história, que relato mais agradável de se ler...
Quando você falou do vovô todo cheiroso, com a toalha no pescoço se dirigindo à mesa eu me lembrei de um detalhe: se um minúsculo pingo de café caísse na sua camisa... ai, ai... ele imediatamente trocava de camisa. "Ô homem vaidoso!"
Valeu pela história, linda! Parabéns!
Eita!
ResponderExcluirEsses meus primos estão de parabéns!
Sua história e a do Dudu estão muito parecidas! Me fizeram rir e lembrar da minha infância, bem mais que poderia imaginar...
Mari, parabéns pelo texto e também parabéns para o Dudu, até parece que combinaram, hein?! Inclusive na qualidade!
Grande beijo e obrigado pela lembrança do Vovô!
Marininha,
ResponderExcluirQUe bela escrita! Descreveu direitinho momentos que também vivenciei!
Amei!
beijoss