Entre um cochilo e outro. Tenho a impressão que foi assim que guardei a primeira memória da minha vida: a do colo do vovô. Vejo seus braços fortes me segurando de maneira firme e ah..., minha luta inútil para fugir daqueles seus carinhos viris! Era ele, com aqueles óculos grossos, os olhos fechados e o sorriso contido, esfregando sua barba grisalha e grossa, ainda por fazer, na minha bochecha lisa e gorducha. “Ai ai ai, isso pinica, vovô!”
Nas fitas de vídeo cassete que eu vi mais tarde na casa do tio Valner e da tia Lígia, não só tive a oportunidade de observar outros primos passando pelas mesmas intempéries, como também assisti toda a energia das festas de aniversário dos anos 80 e 90. Cara, quanta alegria...! Lembro-me bem do zelo dos nossos pais ao arrumarem os salões de festa com decorações fantásticas, para depois organizarem brincadeiras e gincanas divertidíssimas. Era tanta coisa pra fazer que mal dava tempo de desfrutar da fartura de comida e bebida da festa. A animação e a integração por si só merecem um espaço à parte. Fica aqui a lembrança de um tempo em que crianças e adultos se divertiam juntos na pista de dança ao som de Xuxa, Balão Mágico, Trem da Alegria e companhia limitada.
O Bloco C da 312 Norte, o prédio do Seu Lima e da Dona Francisca, foi o palco de muitos encontros bacanas da família. Foi também um dos pontos fortes da minha infância, por onde traçava percursos de bicicleta entre seu estacionamento, as mangueiras, os ipês e os pés de jaca, até chegar ao gramado vizinho, da 311 Norte, antes desabitada, onde uma trilha cheia de aventuras levava ao terreno baldio da atual capela da Consolata. Era um barato! Talvez pela mesma inspiração, um candidato a prefeito da quadra reuniu um mutirão de adolescentes da redondeza e em apenas um final de semana transformou minha trilha natural em uma grande pista artificial de mountain bike. A façanha até foi filmada e mostrada na TV local. Imaginem a estranheza que a medida causou aos olhos do Seu Lima...
Certa vez, caminhávamos lentamente pela calçada entre nossos prédios, quando de repente o vovô se virou com um movimento brusco, apontou em direção à pista das bicicletas com o olhar distante, deu seu característico fungado e exclamou: “ô sirvicinho mal feito!”. Reclamava com razão, pois um bocado de poeira levantava dali todos os dias, atacando os alérgicos de plantão. Ironicamente, não demorou muito tempo até o circuito de terra virar um campinho de futebol.
De volta ao Bloco C, faz pouco tempo que avistei de longe Dona Francisca lendo um jornalzinho num banco na frente do prédio, com o intuito de usufruir do sol da manhã. Cena que me pegou de jeito, tal era a semelhança entre ela e o vovô naquele instante. Não era idêntica só no olhar, mas também no jeito singelo de aproveitar o dia de forma serena, sem pressa, de corpo e alma.
De repente imaginei um retrato dos dois ali, de mãos dadas, sentados naqueles banquinhos de praia bem coloridos. A impressão que tive é que seus corpos já não se distinguiam, estavam misturados, formando uma pessoa só. Não conseguia vê-los nitidamente, de tão forte o clarão do sol, e foi em um desses momentos de pura imaginação que a história dos dois se perpetuou em mim. O retrato então virou poesia, foi publicado e postado na memória da família Lima com beleza singular, por gerações e gerações.
Por: Eduardo Queiroz
15/01/2010
Não tive o prazer de ver a Dona Francisca lendo o seu jornalzinho debaixo do bloco C. Mas o vovô... realmente é uma cena que não sai da nossa cabeça.
ResponderExcluirAssim como você, eu estava refletindo um dia sobre o bloco C da 312 norte. Tantas lembranças legais.... Outro dia desses, lembrei de quando não havia salão de festas no bloco C e as celebrações natalinas eram no apartamento 206. A família ainda não era tão grande, de netos eu me lembro somente de mim e do Leonardo (o Rodrigo era muito pequenino, eu não me lembro bem). Havia uma um pinheiro natural (que o vovô arranjava lá para aquelas bandas atrás do Ceub) todo enfeitado pela vovó. Eu amava ver aquele pinheiro. Boas lembranças....
Valeu Dudu, parabéns por mais uma história bela história do nosso mais fofinho protagonista: o seu Lima. Agora fiquei com o gostinho de quero mais, vamos publicar logo a história da Marina, viu?
Valeu, Duduzão!
ResponderExcluirBelíssima história e maravilhoso texto, você escreve muito bem, rapaz! Meus parabéns!
O lance da barba é mesmo uma coisa que marcou todo mundo, né... E o Vovô adorava! hahaha...
E o jornal, após lido, se bem me lembro, voltava todo amassado... Esse era o Vovô! :)
Abração, mermão! Você é o cara!
Léo