quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O que não é real também emociona

Uma das melhores lembranças que posso recordar desde a minha infância era correr pelo corredor do segundo andar do bloco C, sentido apartamento 210 - apartamento 206.

E foi assim mesmo que tudo começou: corri pelo corredor, desacelerei ao passar pelos elevadores e cheguei diante da porta da casa da vovó. Abri a porta (eu sabia que quase sempre estava destrancada), empurrei-a devagar e vi a sala muito arrumada e iluminada pelo sol da tarde. Entrei calada e sentei-me no sofá.

Percebi que meu pai estava lá na copa, em pé, diante da mesa de jantar. À primeira vista ele não me viu. Estava com um olhar misteriosamente encantador para alguém. Meu pai o abraçava apertado e o encarava penetrantemente.

- Pai, quem o senhor está abraçando?,Perguntei.

- O seu Lima.

- Meu coração acelerou. Perguntei novamente: - Quem???

- Ora, minha filha, o papai.

Emudeci. Mil coisas se passaram pela minha cabeça. Como podia eu não o enxergar? Permaneci alguns instantes ali, quietinhos no sofá, esforçando para visualizar o que os meus olhos não conseguiam ver, infelizmente... Uma bom pensamento me ocorreu. Levantei-me imediatamente do sofá com a intenção de localizar a vovó. Pensei: -Ela tem que vê-lo! A vovó não vai acreditar que o vovô está aqui!

Andei pelo corredor, o sol da tarde iluminava todo o quarto da tia Edith e um pouco do corredor. Cheguei ao segundo quarto e vi a vovó, estática, olhando para a janela. A luz do sol invadia todo o quarto, a luminosidade era muito intensa naquele ambiente. Era tão intensa que eu quase não conseguia permanecer com os olhos abertos. Chamei-a baixinho, mas não fui atendida. Tentei novamente: - Vovó, vovó! Fiquei em silêncio novamente e percebi que a vovó conversava com alguém. Ousei perguntar: - A senhora está conversando com quem? Ela me olhou, sorriu carinhosamente e respondeu: - Converso com Nossa Senhora, você não está vendo? Arritmia cardíaca, esse foi meu auto-diagnóstico. Pensei mil coisas:- Nossa Senhora estava aqui? Como pode? Foi ela quem trouxe meu avô?

Só me lembro que depois disso eu acordei. Emoção demais. Acho que fiquei uns 10 minutos na cama pensando, pensando. Revivi aquela cena repetidas vezes na minha mente.

Resolvi me levantar e procurar alguém para contar este sonho tão maravilhoso. Pensei logo que meu pai poderia ser um bom ouvinte, afinal, desde a minha infância, quando eu acordava, eu comentava: - Pai, sabe o que eu sonhei? E ele respondia sorrindo e brincando: - Sonhou? Não é possível! Ô menina que sonha!

5 comentários:

  1. Ju!!! Que alegria saber que você joga no meu time! Sabe qual o nome, né? Sonhadores Futebol Clube. Nele já são titulares Dudu, Lelê, Lalá e Miguel. E o nosso "professor"... Ah, essa fácil: é o vovô, claro. Tá bom ou quer mais?

    Cara, a última fala do texto é muito emblemática! É como se eu tivesse ouvindo seu pai falando isso agora! "Ô campeão...! Ô campeão...! Ô menino pra jogar vídeo game!" Hahaha!

    Arrasou, Ju! Beijão.

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  2. Ju, que texto mais lindo do mundo! Tão profundo e significativo... Amei! Parabéns pela estilística! Muito me emocionei.

    Beijo e abração da Marina, ex-esposa do João Bobão da sua casa.

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  3. Primona, legal mesmo!

    Sonhos são significativos e profundos, se bem analisados.

    Gostei muito e deu pra viver certa "quimera" nisso tudo... principalmente por eu ter a impressão de ter lido ou passado por algo parecido, será "Déjà Vu"? Engraçado, né?

    Impressionante...

    Beijo!

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  4. Lindo texto, Juju!

    Os seus sonhos são os melhores mesmo, hein...

    A propósito:

    Só faltava um barco em direção ao Castelo de Grayscow...hahaha

    Beijos!

    Léo

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  5. Texto realmente emociante!

    Ju, apesar do título, eu ainda acreditei no que estava escrito, para só ao final, ver que era sonho (mas que na verdade "também emociona"!).

    Beijos!

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