quarta-feira, 7 de abril de 2010

É Páscoa!

Hoje, Domingo de Páscoa. É tempo de Ressurreição.

Hoje, 04 de Abril. Também é tempo de lembrar seu Lima, pois ele faria 87 anos de vida.

Impossível não fazer uma leve relação de uma data à outra, principalmente pelo apreço que o aniversariante do dia tinha pela Páscoa – data mais importante do calendário Cristão.

Recordo perfeitamente das nossas Páscoas quando a família reunida fazia as orações e o vovô, ao final, pedia licença para “só falar uma coisinha”... todos nós, com muito gosto, ouvíamos seus famosos conselhos e observações das leituras aplicadas ao dia-a-dia.

O vovô é uma pessoa impossível de esquecer. Ele mais parecia um personagem de ficção! Tinha base firme, de princípios inabaláveis, cabeça bem resolvida de pessoa adulta; ao mesmo tempo em que era sincero e espontâneo, sempre agia com inocência e pureza, demonstrando um coração de criança (o que o deixava mais perto de Deus).

Uma de suas características mais fortes era a personalidade totalmente ativa, a impressão era que seu corpo não acompanhava a velocidade de seus pensamentos. Era Vicentino, ia a pé para a casa de cada um dos filhos e para a Água Mineral, reformava todas as coisas no Condomínio Verde, batia perna para todos os cantos, arrumava tudo que estava precisando de reparos, rezava, incentivava, falava, se admirava, aconselhava, agia...

Na Missa de trinta dias de falecimento do vovô lembro-me dos meus amigos impressionados com o carinho e o com o número de pessoas presentes na celebração. Até que um deles, curioso, indagou: “Júnior, seu avô deixou muito dinheiro para a família, para tanta gente assim vir à Missa?” Quando lhe respondi que o vovô não havia deixado nenhuma fortuna material para seus descendentes, ele custou a acreditar...

Fiquei pensando e cheguei à conclusão que seu Manoel não seguia a lógica do mundo. De fato, ele não deixou fortunas materiais. Mas, com certeza, deixou, sim, uma linda herança para sua amada esposa, dona Francisca, e todos seus sucessores: o AMOR! Como pode um homem tão simples, tão singelo, ser tão amado e respeitado por tanta gente sem deixar bens materiais em troca? Isso só prova que seu Lima soube fazer um verdadeiro “servicinho bem feito”!

A vovó, escancaradamente, era seu grande Amor – o seu porquê de continuar vivo. Certa vez, quando morava em Florianópolis, eu estava por receber a visita da vovó. E o vovô me ligou de Brasília, dizendo: “meu Zunin... não vou deixar a Quinha viajar sem mim mais não... ela não consegue viver sem mim, ela precisa de mim!”. Mas todos nós sabíamos que era ele que não aguentava ficar longe dela.

No dia de hoje continuo sentindo o vovô com seu sorriso firme, verdadeiro e amoroso presente no meio de todos nós – sua amada família.


O que me deixa mais perplexo é poder vivenciar um pouco do seu Lima convivendo com a vovó e com cada um de seus filhos. Posso citar rapidamente, dentre tantas características, pelo menos uma do vovô em cada um deles:
- Vovó: o Amor, o respeito e o dom de nos atrair para perto dela.

- José Romildo: o gosto pela leitura;

- José Válner: o senso de humor;

- Lígia: a religiosidade;

- Conceição: o zelo pelos filhos;

- Hélder: o carisma;

- João José: a pureza;

- Edith: a ligação com a natureza;

- Francisco: a perspicácia;

- Newton: a musicalidade.

Como podemos perceber, Manoel Pereira Lima continua vivo! Seus verdadeiros tesouros emanam sua presença naturalmente!

Vamos seguir seus bons exemplos e homenageá-lo com atitudes nobres durante nossas vidas!

A saudade é grande, mas certamente o vovô está comemorando hoje seus 87 anos de nascimento junto com o verdadeiro Protagonista da Páscoa!

Domingo da Ressurreição também é tempo de renascimento dentro de nós mesmos. Podemos permitir que a verdadeira Páscoa aconteça em nossas vidas quando nos renovamos pelo Amor. Essa é a autêntica herança deixada pelo vovô: o Amor! Sendo direcionados continuamente por esse verdadeiro sentimento, seu Lima continuará sempre vivo!

Valeu mesmo, Vovô! Feliz Aniversário e feliz Páscoa para o senhor!

Feliz Páscoa a todos!

Por: João Miranda Lima Júnior

terça-feira, 6 de abril de 2010

Seus secretários

De vez em quando, eu e Francisco tínhamos consulta médica (a do Newtinho era mais diferenciada, ele era bebê). Consulta que virava uma aventura, e, não raro, era o papai quem nos levava. Não querendo se atrasar para o trabalho, fazia ginástica para bater o ponto na agência, onde pegava as correspondências para entrega. “Vamos, vamos!”, andava pela casa tirando seu pentinho do bolso e passando em seus cabelos negros e sedosos, um golinho de café e um “ahh”.

Enquanto a mamãe nos orientava sobre a roupa, etc., eu e o Francisco ficávamos felizes porque íamos andar de ônibus, “uau”! Naquela década de 70, era sim uma aventura. Primeiro porque o ônibus custava a chegar, então, na espera, a gente já começava a viagem. Segundo porque próximo à parada de ônibus havia mata, coisa bonita! Terceiro que a paisagem do trajeto, era , digamos, selvagem, para o que é hoje.

Na parada, segurávamos na mão do papai e pulávamos ao mesmo tempo, saltávamos do banco para o chão e jogávamos pedrinhas pra ver quem mandava mais longe. De repente a gente dizia: “Pai, tô ouvindo um barulho de... ônibus!”. Ah, quando ele surgia... Cada aproximada era um flash! Então eis que ele parava e o papai, já nos pegando pela mão, dizia ao motorista: “Bom dia chefe, trouxe aqui os meus secretários!”. Eu, subindo as escadas meio em diagonal, pois ele me segurava por um braço já de olho no Francisco, que passava voando por debaixo da roleta (sim, nessas horas de passeio o Francisco ficava super ágil!). O garoto queria ver tudo dentro do transporte, ia de um lado para o outro, abria e fechava janelas e puxava a cordinha para o ônibus parar. O papai, no bate-papo, claro, geralmente com o motorista ou cobrador, e eu naquele banco mais alto, olhando a paisagem, o céu de Brasília, a imensidão, um... “plano alto”.

Acho que herdei do papai esse olhar, de buscar nesse céu marcante e único do Planalto Central, um olhar de possibilidades infinitas. Minha lembrança mais forte dele é a de aproximar-se das pessoas com um coração de criança, aquele que se abre para sentir e para dizer o que sente. E assim o fazia, sabendo que a chave das possibilidades era ser como criança, experimentar conversar, não só por palavras, mas de muitos outros jeitos.

Lembro-me que eu criança, na 3ª ou 4ª série, saí com a turma aqui da escolinha da 312 para uma atividade no gramado e, de repente, quem me aparece? Sim, o papai, com a bolsa dos correios a tiracolo, descendo rapidamente a ladeirinha do bloco K. Que felicidade quando nos olhamos! Eu queria colo, mas era tão tímida que não me atrevi a correr ao seu encontro. Certamente ele ia jogar a bolsa no chão, me levantar e rodar comigo, como sempre fazia. Mas fiquei sentadinha seguindo-o até perdê-lo de vista. Como ele era lindo, estatura alta, corpo de atleta... Mas é claro, trabalhava caminhando, por horas! Atributos que foram herdados também dos tempos de agricultor nas terras de meu avô. Papai tinha uma elegância inata, sim, natural, dele. E o sorriso, os olhos, o olhar? Ah, mais além, olhos de fé.

terça-feira, 23 de março de 2010

A regra do bem-viver

Você conhece a regra do bem-viver? Perguntava o meu pai. Eu respondia: “não, conheço não, como é?” Ele entrava com outra história, disfarçava e não respondia. Falava de uma professora muito rigorosa que lhe havia ensinado o “beabá” e que usava de uma palmatória para que aprendesse. Depois emendava a conversa com uma série de versos que essa professora usava para o ensino das primeiras letras: “Mel com pão, pão com mel (...) se não quer o pão, quer o mel?” Uma coisa mais ou menos assim, também nem me lembro tanto, pois essas conversas se davam quando eu tinha uns 12 ou 13 anos e, enquanto ele me servia, pela manhã, antes de ir ao colégio, um prato com pedaços de pão, molhados ao leite e com muito açúcar. Muito bom! Também ele preparava uma farofa de ovos com pedaços de banana que era uma delícia! Eu ouvia aquelas histórias com prazer, enquanto saboreava rapidamente o café, além de prestar viva atenção ao relógio. Hora de ir, só passava por ele se o uniforme do colégio estivesse impecável. “Seja feliz!”, dizia ele, à porta. Escada ou elevador? Enquanto isso, respondia: “Tá bom pai, tchau”.

Eu ia para escola e já, lá na frente, olhava para trás, para o bloco, pois sabia e tinha a certeza que o meu pai me observava da janela do apartamento. Acenávamos um para o outro. Agora eu podia chutar os cascalhos e cristais, sobras de obras, respirar a umidade da aurora e apreciar o revoar dos passarinhos ao me aproximar das moitas de capim-gordura, muito comuns à época. Enquanto caminhava, a mim se juntavam outros colegas da escola, e eu pensava naquela história da “regra do bem-viver”: seria mesmo possível uma regra para o bem-viver? Seria como mandamentos? Seriam ensinamentos? Por que o meu pai não dizia sobre qual e como seria essa tal regra? Égua... Quantas indagações cabem na vida? Há um manual para o animal viver? Quando eu chegava à escola pensava: “a regra do bem-viver deve ser bem diferente de tudo isso...” E ficava “na minha”, como a publicar um ato secreto. Credo.

Essa tal regra que meu pai dizia e não dizia me aproximou dos mistérios e me distanciou dos ministérios! Tem me valido uma curiosidade que me custa caro, porém a sensação é de ir ao encontro de um raríssimo tesouro. Na verdade, é um ponto de construção e desconstrução, ou de mutação, assim como foram os inúmeros paradigmas que sustentaram a sociedade há um tempo. Descobri que o meu pai também brincava com essa história, pois ele não podia dizer para mim o que era porque também não acreditava que fosse somente aquilo que aprendera. Havia muito mais do que aquele aprender traumático que se resvalou em sua memória. E ele resolveu reinventar e encarnar a regra do bem viver... Com um coração de criança, o velho sorriso estampado no rosto, as veias estufadas pelo trabalho e os olhos miúdos de um sonhador, pôs-se a ensinar como construir um mundo melhor, com a simplicidade das coisas, alegria, amor e prazer. Servir e respeitar o outro. Descansar bem do dia. Acordar com confiança. Ser “positivo”, como diria. De quebra, pegava o violão e cantarolava:

“Eu fui às touradas em Madri

Parará tim bum bum bum

Parará tim bum bum bum

(...)

Eu conheci uma espanhola

Natural da Catalunha...”

Por: Francisco de Assis Oliveira Lima

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Seu Lima que conheci - recordações

A pedido de seus filhos, principalmente, na pessoa de meu querido amigo e ilustre jornalista, José Romildo Oliveira Lima, passo a relatar alguns fatos vividos e presenciados por nós, quando Seu Lima esteve no Rio de Janeiro, terra que ele amava com tanto carinho, pois aqui estivera, quando ainda jovem, e trabalhou na construção do Túnel Santa Bárbara no bairro do Catumbi. Por diversas vezes quando passávamos por lá ele me relatava as dificuldades e o trabalho penoso que ali exercera. Tempos difíceis aqueles, mesmo assim ele recordava com tanto carinho.

Em janeiro de 1991, Seu Lima e Fransquinha vieram passar uns dias conosco em Jaconé (RJ). No domingo fomos visitar sua irmã Doninha, que morava em um bairro de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, chamado Tribobó. Nesta época eu possuía uma Brasília branca e, de manhã cedinho, depois do café, pegamos a estrada. Chegamos por volta das dez horas da manhã. Qual foi sua alegria ao ver a irmã, o cunhado, Sr. Gonçalo Tomás, e todos os sobrinhos que moravam por perto... Foi uma festa só, uma alegria imensa tomou conta dele, Seu Lima, era de simplicidade ímpar, uma característica que o acompanhava em sua vida. Conversou muito, relembrou os tempos de sua infância no Riacho da Lapa e todas as histórias ali vividas, eu fiquei como ouvinte, pois não conhecia este lado, fiquei saboreando estes “causos” transcorridos na sua juventude. Houve um lanche farto com toda a família, confraternização geral, foi uma verdadeira festa.

Quando já estávamos para retornar, Seu Lima me disse: “Olha aqui este galho desta planta tão bonita”, havia podado e alguns galhos jaziam no chão, perguntou se pegava de galho, os seus familiares disseram que sim, então me perguntou: “Posso levar para plantar no seu terreno em Jaconé?”. De pronto concordei. Como o galho era grande e não cabia dentro do carro, ele o levou agarrado pela mão junto à porta do carro pelo lado de fora. Durante a viagem dizia: “Assim que eu chegar, vou plantar e regar para que ela cresça”. E assim o fez, escolheu ótimo lugar junto ao campanário de Nossa Senhora da Conceição que temos em Jaconé, como homenagem à padroeira de Ipueiras (CE), cidade onde nascemos. A planta pegou e ainda hoje está lá, enfeitando e embelezando o jardim. Já foi podada várias vezes e continua uma de uma beleza incomparável. Vejam a foto:


“Causo” I
Nesta mesma viagem que veio nos visitar em Jaconé (RJ), todas as manhãs íamos caminhar cedinho na área da praia, adorava fazer isto logo cedinho, e íamos contemplando a exuberante natureza de Jaconé com suas montanhas verdes e mar verde claro, cor de esmeralda. Era uma paisagem deslumbrante, o sol ainda nascendo com seus raios dourados, o que deixava a natureza ainda mais bela. Seu Lima parecia uma criança diante de tamanha beleza, e andava como uma criança peralta não observando aonde pisava e distraído caminhava bem perto da arrebentação das ondas. Então, mais que de repente, veio-lhe ao encontro uma onda que o derrubou. Caiu dentro d’água molhando toda a roupa e sujando de areia sua bermuda. Quando chegou a casa, Fransquinha perguntou-lhe com grande amabilidade e preocupação: “Lima, o que houve? Está todo sujo de areia e molhado!”. Ele, com aquele jeito maroto, disse: “Uma onda me pegou e caí”, ria muito como uma criança travessa.

“Causo” II
Todas as noites rezávamos o terço no alpendre da casa. Margarida colocava uma imagem de Nossa Senhora e assim o terço era rezado. O Seu Lima tinha uma maneira peculiar e particular de responder o terço, pois a Fransquinha era quem “tirava” o terço. Ele, sempre com uma voz forte e pousada, dizia: “SANTA MARIA...” começando primeiro antes dos demais e dava ênfase à expressão “SANTA MARIA”. As meninas, que naquela época eram pequenas, riam muito da maneira como ele rezava. Elas riam não por deboche, mas por sua maneira sui generis de rezar. Depois do terço todos diziam “SANTA MARIA...” tentando imitar aquele tom forte e característico que só ele conseguia.

Tenho convicção (plagiando o Lula), que quando o Seu Lima chegou lá no céu, bateu na porta e São Pedro veio recebê-lo e dizendo: “Entre meu filho, tome posse de sua morada”. Então ele ficou assustado com a mansão mencionada por Pedro. Era enorme e de uma beleza que parecia o Taj Mahal e, com aquela simplicidade e humildade que lhe era característica, disse para Pedro: “É minha mesmo? Tem certeza?”. E Pedro, encorajando-o, disse-lhe: “É sim”. Então, dirigiu-se para lá e tomou posse. A minha certeza está baseado na palavra do Senhor Jesus, que nos revelou no Evangelho de Mateus 25,34 – “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino (casa) que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me deste de comer(...)” Aqui faço minha reflexão, o Seu Lima, quando aqui vivia, fez muitas e boas obras, relembremos: era vicentino - todos os domingos saia com o seu grupo para levar alimentos, roupas e outras oferendas aos pobres da periferia de Brasília. A todos cumprimentava com um sorriso nos lábios, os aconselhava e orava com eles.

Quando encontrava um amigo na rua ou quando fazia sua caminhada matinal, dava uma atenção especial a todos, conversava, ria e sempre tinha uma palavra amiga para quem quer que fosse. Isto é evangelizar, isto é transmitir o amor de Deus ao próximo. Tudo isto era o tijolinho que ela estava mandando diariamente para o céu para construção de sua morada eterna. Tanto é que, quando chegou, encontrou a sua morada ornada e pronta pelo Pai.

Estas são minhas recordações deste simples e humilde servo do Senhor, que fez de sua vida aqui na terra um exemplo de um ser humano, que ama seu próximo independentemente de sua cor, raça ou credo e amava com a simplicidade dos santos. É exemplo para todos, principalmente para nossas famílias, que têm um orgulho muito grande de ter convivido com ele. O que mais admirava no Seu Lima era aquela simplicidade, aquela pureza de uma criança que existia no seu ser.

Por: Raimundo Djacir Melo

sexta-feira, 5 de março de 2010

Escuta!

"Escuta!" Era assim que o papai dizia muitas vezes ao caminharmos pelas trilhas na Água Mineral..."Tá ouvindo? Aquele ali é o Quero-quero, olhe, um Anum!", às vezes eu arriscava “Pai, esse canto é do sabiá?” e ele já parando, braços pra trás, olhava bem pro alto das árvores, numa tentativa de, com seu assobio, travar um “diálogo”com o passarinho. Seguiamos pela trilha com os sentidos aguçados, queríamos sentir mais aquela maravilha; de vez em quando ele puxava o ar com mais vigor e o soltava mais devagar. Será que lembrando de suas caminhadas no Riacho da Lapa e Pé do Morro, ou mesmo em Brasília como carteiro? Às vezes era pelo silêncio que percebíamos melhor tudo. De repente, o papai se abaixava e dizia: “olhe aqui o capim gordura”, mais lá na frente: “Ó Dith, o tamanho do cupinzeiro!”, aí, de repente vinha um cheiro avassalador, e dizíamos quase ao mesmo tempo: “humm, que bom!!” e já olhando em volta, Seu Lima decodificava: “Imburana de cheiro”. Pra aquecer um pouco a conversa, eu provocava, “vamos Manoel, quer morar aqui, é?” É que eu estava muito afim de pegar um solzinho que brilhava “lá fora” , sim, explicando que os raios solares não adentram àquela mata, não inteiramente.

O olhar do Seu Lima. Um olhar de ternura que se nutria de tudo ao redor, acho que pouco ou nada lhe escapava; e suspirava cada vez mais calmamente como que consciente do sopro divino que nos fez e nos refaz a cada instante.

O seu jeito de ser numa frase: olhar de frente todas as experiências, sejam maravilhosas ou nem tanto, mas era só assim que ele sabia viver.

Por: Maria Edith Oliveira Lima

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O dia todinho!

Na verdade ele dizia: "Passa o dia toldinnnn!!" Manduca era uma pessoa que diversificava suas atividades durante o dia. Resolvia problemas caseiros, fazia compras, visitava pessoas, caminhava, lia seus jornais, tirava um cochilo, rezava e não se conformava em nos ver demorando em alguma atividade. Passa o dia toldinnn! Era uma expressão de alerta para que não ficássemos a ver navios e presos ao tédio, preguiça e monotonia. Com certeza se nos visse hoje em dia demorar mais que uma hora no computador, viria com a máxima: Passa o dia toldinnnnn em frente ao computador! Grande sabedoria aquela. Explorar o máximo de possibilidades.

No condomínio verde (casa maravilha da Edith) onde passamos muitos feriados, férias e fins de semanas juntos, fizemos muitas atividades no quintal. Capinar, podar as plantas, limpar o terreno e preparar a terra para o plantio de alguma cultura. Lembro que acompanhei um dos seus projetos de perto. Os projetos das bananeiras. Certa manhã depois do café delicioso de Dona Francisca avistei o Seu Lima munido de pá, rastelo e enxada bem no final do terreno. Perguntei a ele o que ele iria plantar ali. Respirando rápido e com muita ansiedade ele disse: “Toma Newton! Faz um buraco fundo que ôô terreninho pedregoso! Duro rapaz!.” Realmente a terra não era brincadeira. Passei uma manhã quase inteira e os buracos não avançavam tanto.

E ele vinha, voltava, trazia uma garrafa de água, um pouquinho de café. O sol estava pelando! Dona Francisca nos chamou para almoçar. De tarde para minha surpresa ele estava tranqüilo, não demonstrava nenhuma ansiedade, colocou os pés na cadeira e pediu que eu trouxesse as almofadas. Comentou depois em voz alta: "Vamos fazer cinco covas fundas!". Brincando com ele, respondi: “Tem que ter uns quatro ajudantes. Passei o dia toldinnn fazendo buraco!” Ele e dona Francisca sorriram. Passadas algumas semanas retornei ao condomínio para outra temporada. Havia cinco covas bem fundas e prontas para receber o adubo e a terra preparada. Ele contratou alguns trabalhadores para terminar o serviço. Depois de alguns anos saboreamos os deliciosos frutos e continuamos a saborear outros também.

Por: Newton Lima

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Vovozinho - Cabecinha de algodão

Vovozinho. Ou, para mim (e, talvez,para mais alguém) “cabecinha de algodão”. Tão macia, tão cheirosa! Que só de relembrar, o coração aperta. É como se ele estivesse à minha frente e eu a passar e deslizar as mãos sobre sua cabecinha de algodão.

Vovozinho, que sempre chegava à minha casa no tocar rápido de campainha, e nós (eu e o Júnior) falávamos: “aposto que é o vovô!”. E corríamos para abrir a porta e já dizíamos: “Vovô, benção! Tudo bem?” e ele respondia: “Deus te abençoe!”. Mas parecia se sentir envergonhado e não respondia a todas as perguntas, já ia dizendo: “Cadê o Seu Miranda e a Lilinha?” Lilinha era o modo a como se referia à minha mãe, e ela, da mesma forma, assim como outros membros da família, também se refere a mim.

De pronto, já oferecíamos o jornal, antes que se invocasse de sair andando novamente. Falando nisso, como era culto! Como estava interado dos assuntos. Criticava, elogiava, perguntava, em especial, assuntos políticos e econômicos. Eu ficava realmente impressionada.

Quando ele queria ir embora, mas não queria pedir para alguém o levar, já dizia: “então eu já vou”. Um coro respondia instantaneamente: “Não vovô!”; “Não papai, espera! Eu o levo”. “Não vovô, meu pai já vai trabalhar e dá uma carona ao senhor”. Pronto, ficava todo satisfeito. E já ia descendo na frente para analisar o jardim, conversar com os porteiros e ficar ao ar livre. E como sempre, se despedia com a famosa frase: “Seje bem filizzz, minha filha!”. Eu sempre levei tão a sério esta frase, que tomava posse de seus dizeres afirmando fortemente: “Amém, vovô!”.

Certo tempo, quando as orações cominadas com almoço (ou lanche) foram implantadas em nossa família todos os Domingos, era uma alegria para ele e para a vovó. Não sei qual o sentimento exato de cada um, mas estou certa de que pelo menos, a alegria de nos reunirmos prevalecia, e a vontade e o desejo de oração foi tornando-se mais consistente, mais profundo, mesmo após a “partida” do nosso patriarca, como de fato, está até hoje.

Triste? Para nós humanos, demais. Dói muito pensar que não o temos de carne e osso ao nosso convívio. Alegres? Sim, quando estamos investidos do sentimento de cristãos, pois, acreditamos que ele já cumpriu sua missão neste mundo e está junto de Deus, aguardando a hora de cada um para reencontrá-lo. Inclusive, ele foi passar o Natal ao lado do aniversariante (23/12/04). Isto que é privilégio de um homem de fé, puro e inesquecível. Realmente foi um exemplo de cristão.

Nunca vou me esquecer de sua expressão durante as orações. Quando estávamos reunidos em momentos de reflexão e leitura, todos compenetrados; uns de cabeças baixas e olhos fechados; outros olhando para o narrador; outros olhando para cima e eu olhando para cada um, assim como hoje tenho este costume. O engraçado é que sempre que eu passava os olhos ao chegar ao vovô, ele me olhava, arregalava um pouco os olhos e como que se afirmasse um sim, balançava a cabecinha e dava um sorriso encantador. Sempre! E eu retribuía e meu coração ardia. Acho que era uma expressão de amor instantâneo. Era Jesus, na forma de homem, me confortando. =)

Bom, gostaria de compartilhar momentos particulares e de uma visão pessoal minha em relação ao vovô. No fundo, sei que ele está vendo tudo o que estamos fazendo e falando e quero dizer, vovô, que momentos tão simples e do dia-a-dia, ficaram marcados em meu coração, de uma forma muito peculiar. Tenho guardados até hoje seus bilhetinhos e cartões escritos de forma conjunta com a vovó. Sua letrinha tremida e cheia de palavras sinceras e objetivas estão comigo. Amo o senhor! Fique em paz! Amém.

Por: Lílian Miranda Lima

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Vovô e a loteria da vida

Dia de sol, início de férias... nada era melhor do que bater uma bolinha nos gramadinhos da 312N, quando se podia reunir toda galera! Rodrigão, eu, Nando, Binho, Jéfther, Germano, Marcelo Neguinho, Dudu, Diego, Marcinho e até os mestres dos magos, Maurício e Zé. Todo mundo debaixo do escaldante sol brasiliense, achando o máximo jogar o tal do “golzinho”!

Geralmente havia baixas nos “elencos”, mas aquele dia específico estava perfeito: dois times jogando e um “de próxima”. Ô, coisa boa!

Começamos às duas da tarde e terminaríamos quando “desse na telha”, já que o “golzinho” era a brincadeira favorita do pessoal. O legal era que a galera jogava até escurecer o dia (e a sola dos pés descalços...). A diversão era certa!

Lá pelas 3 da tarde, no meio do “clássico” Rodrigo-Neguinho-Diego contra Nando-Binho-Leo, entre os gritos de “Toca, velho!”, “Chuta!” e outros típicos de uma “pelada”, ouve-se um alto e longo chiado:

-“XXXXXXXXXXXXiiiiiiiiiiiitt......XXXXXXXXXXXXiiiiiiiiiitt!!!”

Todos param e olham para os lados, procurando de onde vem aquele som. Que torna a acontecer:

-“XXXXXXXXXXXXiiiiiiiiiiiitt......XXXXXXXXXXXXiiiiiiiiiitt!!!”

Aquele chiado era familiar, então automaticamente olhei para o bloco “C”. Adivinhei...! Lá estava, debaixo do bloco, o Seu Lima com o seu bonezinho azul e o dedo em riste, olhando para o campinho e voltando a chamar:

-“XXXXXXXXXiiiiiiiiitt...Venha cá!”

Pedi licença ao pessoal e fui atender ao pedido do Vovô. Todos olhavam, aguardando que o time se restabelecesse e o futebol continuasse. Então, cheguei ao vovô e perguntei meio ofegante:

-“Oi, vovô, bênção! O senhor precisa de alguma coisa?”

-“Sim, meu filho... queria que você fosse comigo ao comércio, resolver uns negócios. Vamos lá?”

E deu aquele peculiar sorriso...

Olhei para o campinho: todos aguardando, no mesmo lugar onde se encontravam quando o jogo parou. Pensei:

-“Puxa vida... O que o vovô quer resolver lá no comércio, hein?”

Assim, voltei ao campo, pedi substituição, e fui acompanhar o vovô na sua caminhada ao comércio. Na hora fiquei chateado, pois o futebol daquele dia estava muito bom. Quando conseguiríamos reunir os times completos novamente?

Mas logo fui batendo papo com o Seu Lima e a chateação passou. Como era bom conversar com ele!

Achei que fosse comprar pães, ou arrumar um sapato, ir na farmácia, ou algo parecido. Assim, fomos batendo um papo bacana até o comércio da 312N.

Para minha surpresa, o vovô passou pelo comércio da 12 e foi atravessar a pista, em direção à 313N. Perguntei:
-“Ué, vovô... onde estamos indo?”

Ele, com aquele jeitinho peculiar, falou:
-“Fazer um joguinho, né....! Vai que ‘dexta’ vez dá certo!?”

Aí ele tirou do bolso um pedaço de papel amassado, cheio de números, e subiu as escadas do comércio da 313N. Perguntou se eu também não queria fazer uma fezinha, já que se ganhássemos, poderíamos ajudar muita gente! (Grande vovô!)

Então ele tirou um volante da loteria e me deu para que preenchesse, enquanto se encaminhava para a casa lotérica. Enquanto estava lá, pensando se colocava o 36 ou o 47(??), para minha surpresa, vejo o vovô voltando todo apressado. Antes que eu pudesse perguntar alguma coisa, ele disse: -“Vamos embora, Leonardinho... Vamos embora... ‘Exta’ senhorita sempre me dá azar!”

Não me contive e comecei a rir, enquanto o acompanhava de volta ao bloco “C”, escutando “por que” aquela senhorita, funcionária da casa lotérica, dava tanto azar assim.

Voltei ao futebol, mas aquilo não me saía da cabeça. Como é que a coitada da funcionária nunca deu sorte para o meu avô?! (risos)

O engraçado é que, no fundo, tanto o vovô quanto todos já sabiam que o maior prêmio da história já havia sido contemplado muito antes: a linda Dona Francisca e sua linda Família Lima... Haja Mega-Sena acumulada, hein, Vovô...!

Por: Leonardo Daldegan Lima

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Beleza singela

“Bela, tão bonita e tão singela!”, era assim que o vovô cantava quando vinha nos visitar. Isso porque desde abril de 1999 ele era recebido por uma cadela de orelhas compridas, pela cor de chocolate, latido forte e rabo curto, que parecia não caber em si de tanta felicidade. Como de costume, a campainha tocava 10 vezes por segundo sinalizando a impaciência do seu Lima, que queria tomar um cafezinho conosco. E a Bella, tão paciente quanto nossa visita, olhava para a gente com as orelhas em pé, esperando que confirmássemos sua suspeita: “É o vovô, Bella!”.

O encontro dos dois era no mínimo superengraçado. Primeiro, ela ficava sobre as duas patas traseiras e cutucava a mão do vovô com o focinho. E nós quatro chamávamos a atenção dela: “Bella, cuidado para não machucar o vovô!” Depois, ela balançava o rabo frenético, deitava no chão de barriga para cima e então, em uma tentativa frustrada de passar o pé suavemente nela, o querido vô praticamente pisava com sua enorme sandália Rider na Bellinha. E nós quatro: “Vô, cuidado para não machucar a Bella!”

O fato é que os dois achavam o máximo as demonstrações de carinho um do outro. Talvez porque compartilhassem um amor em comum: o Condomínio Verde. A ansiedade, a excitação e a sintonia pareciam ser as mesmas que cada um sentia e poucos compreendiam. Desde pequena, a Bella dava pulos de alegria, latia e chorava quando ouvia a palavra “condomínio”, mesmo que em meio a uma conversa à toa na mesa do café, quando jurávamos que ela não estava prestando atenção. O vovô não deixava de comentar um só dia sobre a casa, as bananeiras, a nova iluminação das ruas, o canto dos pássaros, fora os insistentes pedidos que ele fazia a quem encontrasse e tivesse um carro para leva-lo até lá. Quando os dois estavam juntos naquele santuário, seu Lima não podia ficar mais satisfeito do que ao ver a Bella voltando cheia de lama e mato grudado na orelha. Claro, desde que quem fosse responsável por ela se comprometesse a limpar toda a sujeira do chão branco.

Os cachorros são conhecidos por sua fidelidade, alegria e simplicidade. Quem já teve um desses bichinhos em casa sabe que eles só querem a sua companhia sincera e nada mais. Eles não se importam se está estressado, triste, mal-humorado, desde que fiquem sempre ao seu lado. É possível que o vovô Lima tenha se identificado com a Bella porque transparecia os mesmos sentimentos: era fiel, alegre e simples. Mais do que nunca, esses dois estão para sempre ao lado de quem amam desde que partiram para um “Condomínio Verde” muito maior e especial, aonde nos receberão radiantes.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Histórias do vovô Lima

Como neto e fã incondicional do Seu Lima, é com imenso prazer que venho compartilhar com todos algumas peripécias que vivi ao lado desse grande homem: "o vovô Lima".

Quando morávamos eu e minha família em Florianópolis, Santa Catarina, no bairro Trindade, vovô e vovó nos presentearam com uma temporada em nossa casa. Vovô sempre cheio de disposição, alegria e entusiasmo para qualquer programa e diversão. Jeito único de ser. Quem conheceu lembra-se bem de todos seus trejeitos e manias incomparavelmente únicas e engraçadas...

Numa manhã, como de costume, vovô e vovó acordaram cedo e rezaram uma oração antes de sair do quarto. Seu filho Valner (meu pai) já estava na cozinha esperando para o café. Vovô saiu do quarto logo depois da oração, se dirigiu à cozinha, aonde estava meu pai e disse:
“Bom dia, Zé Valner! Dormiu bem?”
“Bom dia, papai! Vou preparar nosso café! A água já está fervendo...” Vovô dava aquela famosa fungada.
“Espere rapaz! Sua mãe já está vindo fazer o café!”
Meu pai, Valner, então completou: “Não papai! Já estou fazendo...”
Vovô saiu da cozinha indignado em direção ao quarto à procura de minha vó, que carinhosamente ele chamava de Quinha: “Quinhaaa, Quinhaaa... Ô mulher devagar...”

Chegou ao quarto falando "baixinho", mas todos escutavam o que ele dizia:
“Quinha, vá fazer o café porque o Zé Valner já colocou a água para ferver!”
“Calma, homem! Já estou indo!”
“Vá logo!!! Ô homem do café ruim!!!”

Lá ia vovó fazer o café. E todos riam em casa das palavras que Seu Lima falava para Dona Francisca, até meu próprio pai, pois o "baixinho" dele era tão alto que não tinha como deixar de ouvir!

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Eu, Rodrigo, adorava assistir aos programas do Chapolin Colorado e Chaves, que passavam no SBT todas as tardes. Vovô virou meu maior parceiro. Assistia a todos episódios a meu lado. Até fazia uso do bordão, "isso isso isso". Numa destas tardes, assisitimos um episódio do Chapolin com tema de terror, no qual aparecia um homem com um pano na cabeça e fazia uns barulhos do tipo, "Ûuuuu, ûuuuuu"... Vovô dava a fungadinha dele e dizia: "Vixiii, pois mude, menino, mudeee!!!", levantando a mão e apertando os botões do controle num ato de desespero com a cena da TV. Eu colocava novamente no SBT, porque queria continuar assistindo ao programa. Ele se levantava do sofá, e saía dizendo:
"Araaaaaa!!! Vou pro quarto."
Então eu respondia: "Vovô, fica aí!!!"

Mas não adiantava, ele saia zangado e se dirigia pro quarto. Era muito engraçado! Esse momento até hoje me traz alegria da reação tão temerosa de vovô com os fantasmas do episódio. As "almas", como ele dizia.

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Um dia acordei cedo e fui correr na beira-mar norte, em Floripa. Estava treinando para o futebol. Voltando da corrida, normalmente eu tomava banho no banheiro do corredor, mas quando esse estava ocupado, eu me dirigia ao quarto suíte, onde meus avós dormiam. Neste dia, não esperava que teria alguém dentro do banheiro com a porta encostada, então peguei a toalha e entrei no banheiro. Me deparei com a cena mais hilária da minha vida! Vovô estava sentado no vaso lendo seu jornalzinho. No mesmo instante que entrei no banheiro o susto dele foi tamanho que imediatamente ele se tampou com o jornal e gritou:
"Vixiii! Saia daqui meninooooo!"
"Ai, vovô, desculpa!"
Saí correndo rindo pela casa em direção a vovó: "Vovó eu vi vovô sentado no vaso do banheiro!!!"
Vovó achou engraçado, colocou a mão na boca e começou a rir.

Vovô saiu do banheiro fungando em direção à sala e disse:
"Rodriguinho, vou dizer tudo a seu pai! Ô menino sem educação!"
"Vovô, desculpa! Eu não sabia que senhor estava no banheiro, a porta só estava encostada!"
"Não gosteiii!"

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Quando meus pais casaram, foi lhes dado de presente de casamento um crucifixo para abençoar o novo lar. Este crucifixo está com nossa família desde então. Quando nos mudamos para Florianópolis, vovô encontrou o objeto dividido ao meio e encasquetou que teria que arrumá-lo. Cléderson, marido de minha prima Ana Maria, falou ao meu vô que existia um homem que arrumava crucifixos no morro. Mas não sabia exatamente aonde. Apenas que era no morro. Nisto, Ana Maria disse que se meu avô conseguisse arrumar o crucifixo, ela restauraria sua pintura.

Foi o que bastou para que Vovô tivesse uma idéia. Na manhã seguinte, quando todos nós acordamos, sentimos a falta de vovô, que não se encontrava em nenhum lugar da casa. Todos nós ficamos preocupados, principalmente a vovó, que dizia: "Aonde esse homem foi?!"

Meu pai dividiu todos para saírem em busca do Seu Lima pelo bairro. Leonardo, Juliana e eu, cada qual foi para um lugar distinto, todos em busca de Seu Lima. Voltamos para casa depois de algum tempo e nada de achar o vovô. A preocupação só aumentava, fazendo com que nós avisássemos até ao Cléderson e à Ana, achando que poderíamos encontrá-lo por lá. E nada do vovô. Então, quando ninguém mais esperava, eis que surge na porta de casa o Seu Lima, com uma garrafa de sangue de boi de 5 litros no ombro.

Todos nós perguntamos aonde ele estava esse tempo todo. Vovó indagava a ele: “Homem de Deus, aonde você estava e que garrafa é essa?”
Rindo, ele dava a fungadinha básica, passando a mão na cabeça da Vovó: “eu mandei arrumar o crucifixo lá no morro que o Cléderson me indicou e depois fui ao mercado, ora"
Todos nós ficamos de boca aberta, pois ambos lugares eram longes demais e aquela garrafa pesava muito para ele ter trazido a pé durante todo esse destino. Demos rizadas quando ele, bem disposto, disse: “abra essa garrafa, Zé Valner! Vamos tomar logo este vinho!”

Foi uma aventura engraçada de Seu Lima. E hoje o crucifixo encontra-se em perfeito estado no Magestic, casa de meu pai, graças ao Seu lima!

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Vovô e vovó, em dia de sol, foram levados pelo meu pai para a praia do Campeche, no sul da ilha de Florianópolis. Meu pai, querendo agradar o Seu Lima, ofereceu-lhe uma caipirinha. Vovô adorou a idéia e a bebida! Num outro dia, Cléderson convidou a todos nós para irmos à praia de Daniela, no norte da ilha. Ele comentou com o vovô sobre os benefícios da caipirinha, que, por sua vez, concordou, contando a ele sobre o dia em que bebeu a bendita batida de limão com o meu pai. Já na praia da Daniela, vovô deu sua famosa sumidinha, deixando todos novamente muito preocupados, pois ele não conhecia o local.

Depois de muito procurar por ele, saí em busca de locais fora da praia e imaginei que ele pudesse estar num barzinho do outro lado da rua. Não é que de fato o vovô estava lá? Quando cheguei disse a ele: “Vovô! Todos estão procurando pelo senhor!”
Seu Lima, já um pouco empolgado com a caipirinha, pediu ao rapaz do bar: “pois, me veja mais um rapaz!"
Discordei na hora: “Não, vovô! Vamos embora!”
E ele rindo, dizia: “Araaaa! Já estamos indo, menino!”

Ele tomava aquela caipirinha numa satisfação tão grande que chega estralava os beiços! E assim fomos ao encontro da família. Voltando para casa, no carro do Cléderson; vovô falou tudo tão embaralhado que ninguém entendeu aquele dialeto! Quando chegamos em casa, a vovó, rindo com a mão na boca, perguntava: "O que esse homem está dizendo!?"

Foi a cena mais engraçada da coleção de várias de vovô! É um prazer poder contribuir com esse livro em homenagem a ele! São tantas histórias que fica difícil selecionar as melhores para o livro. Meu avô foi um grande homem, de muitas histórias vividas com dignidade e pureza. Nos alegrou com seu jeito simples e único de ser. Ao relembrar alguns desses momentos, nos deixa saudosos e até emocionados. É fácil sorrir com suas histórias, mas difícil amenizar a saudade. A lembrança mais gostosa é quando ele dizia: “Meu Rodriguinhoooo!”

Amo você vovô! Onde você estiver!

Por: Rodrigo Daldegan Lima

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Seu Lima: o contador de histórias

Lembro-me com saudade dos tempos de pequena, no Ceará, da família reunida antes de dormir: Seu Lima, Dona Francisca, e a “reca de menino”: João Batista, o mais velho, o Zé Romildo, o Zé Valner, eu (Lígia), a Conceição, o Tontonho, e o mais novo, o pequeno João José, ainda bebê.

Após a janta, o papai e a mamãe reuniam a prole para rezar o Terço. Era um momento sagrado. Ninguém estava dispensado. Eles “puxavam” e todos respondíamos. Ah, e de joelhos. Ninguém reclamava, e até procurava apressar já pensando na atividade final antes de dormir. Quando terminava a Salve-Rainha falávamos em uníssono: “Bênça Papai do Céu, Bênça Mamãe do Céu”, e em seguida todos corriam para pedir a Bênção dos pais - se revezando uns para o papai e outros para a mamãe e depois vice-versa.

As luzes da cidade eram apagadas às 9 horas da noite, então o clima era propício para aguçar a atenção. Acendia-se a lamparina, e aí pronto, era só sentar nos degraus da porta, ou ali no chão mesmo, dentro de casa. Chegara o momento tão esperado: ouvir as histórias que o Seu Lima contava. Toda noite, a seleta platéia escutava com ansiedade e emoção as belíssimas histórias do papai. Era imperdível. Ninguém dormia até a história terminar.

A mamãe se afastava para uma rede perto dali para fazer o neném dormir, mas também escutava as histórias do papai e as poucas interferências de algum perguntador que queria confirmar se era aquilo mesmo. Mas logo era interrompido pelos outros: “Psiu! Depois você pergunta! Esse minino não entende nada!” Mas logo se voltava ao clima de atenção, silenciando para não perder nadinha da história.

As histórias iam desde “O Pavão Misterioso”, “A Lâmpada Encantada” até histórias de santos. Enfim, era um vasto repertório. Mas o motivo de tanto sucesso era como o papai contava. Ele tinha um talento todo especial, talvez desenvolvido pela necessidade de entreter tanta criança (e porque sempre tinha um neném pra dormir).

Ele unia a entonação de acordo com cada momento da história criando o clima certo. Também fazia a sonoplastia, digna de um Oscar. Até hoje não esqueço da emoção que sentia quando ele imitava o “barulho silencioso” do avião que o João Evangelista inventou para roubar a princesa Creusa, da Turquia. Os olhos de cada um de nós brilhavam que pareciam duas “bilas”. Era um momento de emoção e suspense. Afinal o rapaz tinha se apaixonado pela princesa e precisava entrar no Palácio com esse Invento que ele tinha criado, sem fazer barulho, pois senão o Conde acordava (e ele era muito feroz). Havia muitos guardas armados até os dentes; e ele tinha pouquíssimo tempo para convencer a princesa. Ah, e ainda tinha na manga um lenço com um produto também inventado por ele, que usaria no caso de a princesa se assustar e gritar. Era realmente muita emoção.

Mas às vezes a história surtia uma emoção maior. Certa noite Seu Lima foi contar a história da lenda para escolher um papa. Rezava a lenda que quem passasse embaixo do sino daquela cidade e ele tocasse naquele exato momento, é porque esse homem tinha sido o eleito de Deus para ser o papa.

Estava meu pai nessa altura da história quando, de repente, todos nos assustamos com um barulho de choro. Olhamos apressados para o lado e vimos o Zé Romildo já de pé e aos prantos. A mamãe que estava na rede gritou de lá: “o que fizeram com esse menino? ” Alguém gritou: “É que ele quer ser o papa”. Isso foi o suficiente para os irmãos chamá-lo assim durante grande parte da sua infância.

Muitas e muitas histórias foram contadas pelo meu pai o que contribuiu para enriquecer o nosso imaginário infantil, não só no Ceará, como já em Brasília também. Aqui ele contou histórias vividas e ouvidas no tempo de construção da cidade e principalmente do Presidente Juscelino, que ele teve oportunidade de conhecer. E sempre dizia a frase habitual : “esse é que é o tipo”, logo depois de contar as aventuras verdadeiras e/ou imaginárias dos pioneiros e candangos da época.

Passamos então, a viver outra fase de histórias, quando demonstrava admiração e respeito pela figura do fundador da cidade que ele passou a amar. Eram histórias de coragem e heroísmo e dessa vez, ele também era personagem.

Por: Lígia Lima

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O que não é real também emociona

Uma das melhores lembranças que posso recordar desde a minha infância era correr pelo corredor do segundo andar do bloco C, sentido apartamento 210 - apartamento 206.

E foi assim mesmo que tudo começou: corri pelo corredor, desacelerei ao passar pelos elevadores e cheguei diante da porta da casa da vovó. Abri a porta (eu sabia que quase sempre estava destrancada), empurrei-a devagar e vi a sala muito arrumada e iluminada pelo sol da tarde. Entrei calada e sentei-me no sofá.

Percebi que meu pai estava lá na copa, em pé, diante da mesa de jantar. À primeira vista ele não me viu. Estava com um olhar misteriosamente encantador para alguém. Meu pai o abraçava apertado e o encarava penetrantemente.

- Pai, quem o senhor está abraçando?,Perguntei.

- O seu Lima.

- Meu coração acelerou. Perguntei novamente: - Quem???

- Ora, minha filha, o papai.

Emudeci. Mil coisas se passaram pela minha cabeça. Como podia eu não o enxergar? Permaneci alguns instantes ali, quietinhos no sofá, esforçando para visualizar o que os meus olhos não conseguiam ver, infelizmente... Uma bom pensamento me ocorreu. Levantei-me imediatamente do sofá com a intenção de localizar a vovó. Pensei: -Ela tem que vê-lo! A vovó não vai acreditar que o vovô está aqui!

Andei pelo corredor, o sol da tarde iluminava todo o quarto da tia Edith e um pouco do corredor. Cheguei ao segundo quarto e vi a vovó, estática, olhando para a janela. A luz do sol invadia todo o quarto, a luminosidade era muito intensa naquele ambiente. Era tão intensa que eu quase não conseguia permanecer com os olhos abertos. Chamei-a baixinho, mas não fui atendida. Tentei novamente: - Vovó, vovó! Fiquei em silêncio novamente e percebi que a vovó conversava com alguém. Ousei perguntar: - A senhora está conversando com quem? Ela me olhou, sorriu carinhosamente e respondeu: - Converso com Nossa Senhora, você não está vendo? Arritmia cardíaca, esse foi meu auto-diagnóstico. Pensei mil coisas:- Nossa Senhora estava aqui? Como pode? Foi ela quem trouxe meu avô?

Só me lembro que depois disso eu acordei. Emoção demais. Acho que fiquei uns 10 minutos na cama pensando, pensando. Revivi aquela cena repetidas vezes na minha mente.

Resolvi me levantar e procurar alguém para contar este sonho tão maravilhoso. Pensei logo que meu pai poderia ser um bom ouvinte, afinal, desde a minha infância, quando eu acordava, eu comentava: - Pai, sabe o que eu sonhei? E ele respondia sorrindo e brincando: - Sonhou? Não é possível! Ô menina que sonha!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Inesquecível personalidade




Escrever sobre o vovô Lima é fazer uma viagem ao interior de mim mesma, é dar um mergulho na alma. Durante os dias destas últimas semanas me propus uma atividade deliciosa... Visitei por intermédio da memória fatos, fotos e feitos do nosso patriarca.

Várias imagens tomaram forma em minha mente e me levaram a construir filmes biográficos, aventuras, romances e animações de cordel. Recordei-me de marcas registradas e da evolução de suas peripécias com o tempo. As lembranças mais antigas são de um vovô forte e cheiroso, de cabelo sempre bem branquinho e penteado, andando com seu robe sobreposto à roupa de algodão confortável, chinelos por cima da meia e toalhas no pescoço em direção à sala de jantar, onde esperava ser servido pela vovó. Quando se aproximava para cumprimentar os netos, roçava fortemente sua barba pinicante contra as sorridentes bochechas infantis. Num sobressalto as bochechas se retraíam e o vovô parecia se divertir muito com a nossa reação. Ninguém ficava incólume à sua provocação.

Lembro-me também do gosto que fazia em deslocar-se por algumas quadras para comprar seu rotineiro pão português. Gostava dele quentinho, caracteristicamente redondo e fofo, em meio a lanches fartos postos ao final da tarde, com a frequente presença de uma tradicional rapadura. Apreciava imensamente a iguaria nordestina. Quando a fatiava em pedaços heterogêneos e irregulares, os oferecia a cada um ao seu redor. E ai daquele que não aceitasse. Tinha forte poder de persuasão: “coma, minha filha, coma. Ara, deixe de besteira.” Mas quando a situação se invertia e lhe oferecíamos alguma gostosura, invariavelmente agradecia e dizia não. Depois disso analisava o quitute, ponderava e dizia “pois me dê um pedaço”, sem medo de voltar atrás e ser feliz. Era gente simples à mesa. Fazia sons e estalidos com a boca, que nem a mais poderosa onomatopéia poderia traduzir à linguagem escrita. Enquanto mastigava, entretinha-se com bate-papos propostos dia após dia pela Leda Nagle em seu programa Sem Censura da TV Brasil.

Em meio a sua rotina, sempre retirava um tempo para visitar-nos. Anunciava sua presença com generosas badaladas à campainha. Eram várias, em sequência apressadamente cadenciada. Vinha, conversava, fazia orações, reclamava da noite mal dormida, convidava para visitas ao Condomínio Verde. Tinha um sorriso lindo, um olhar vibrante, e um jeito de falar deliciosamente cearense. Foi simplesmente uma grande personalidade coroada pelas coisas simples da vida.

Por: Marina Lima
15/01/2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sol da manhã




Entre um cochilo e outro. Tenho a impressão que foi assim que guardei a primeira memória da minha vida: a do colo do vovô. Vejo seus braços fortes me segurando de maneira firme e ah..., minha luta inútil para fugir daqueles seus carinhos viris! Era ele, com aqueles óculos grossos, os olhos fechados e o sorriso contido, esfregando sua barba grisalha e grossa, ainda por fazer, na minha bochecha lisa e gorducha. “Ai ai ai, isso pinica, vovô!”

Nas fitas de vídeo cassete que eu vi mais tarde na casa do tio Valner e da tia Lígia, não só tive a oportunidade de observar outros primos passando pelas mesmas intempéries, como também assisti toda a energia das festas de aniversário dos anos 80 e 90. Cara, quanta alegria...! Lembro-me bem do zelo dos nossos pais ao arrumarem os salões de festa com decorações fantásticas, para depois organizarem brincadeiras e gincanas divertidíssimas. Era tanta coisa pra fazer que mal dava tempo de desfrutar da fartura de comida e bebida da festa. A animação e a integração por si só merecem um espaço à parte. Fica aqui a lembrança de um tempo em que crianças e adultos se divertiam juntos na pista de dança ao som de Xuxa, Balão Mágico, Trem da Alegria e companhia limitada.

O Bloco C da 312 Norte, o prédio do Seu Lima e da Dona Francisca, foi o palco de muitos encontros bacanas da família. Foi também um dos pontos fortes da minha infância, por onde traçava percursos de bicicleta entre seu estacionamento, as mangueiras, os ipês e os pés de jaca, até chegar ao gramado vizinho, da 311 Norte, antes desabitada, onde uma trilha cheia de aventuras levava ao terreno baldio da atual capela da Consolata. Era um barato! Talvez pela mesma inspiração, um candidato a prefeito da quadra reuniu um mutirão de adolescentes da redondeza e em apenas um final de semana transformou minha trilha natural em uma grande pista artificial de mountain bike. A façanha até foi filmada e mostrada na TV local. Imaginem a estranheza que a medida causou aos olhos do Seu Lima...

Certa vez, caminhávamos lentamente pela calçada entre nossos prédios, quando de repente o vovô se virou com um movimento brusco, apontou em direção à pista das bicicletas com o olhar distante, deu seu característico fungado e exclamou: “ô sirvicinho mal feito!”. Reclamava com razão, pois um bocado de poeira levantava dali todos os dias, atacando os alérgicos de plantão. Ironicamente, não demorou muito tempo até o circuito de terra virar um campinho de futebol.

De volta ao Bloco C, faz pouco tempo que avistei de longe Dona Francisca lendo um jornalzinho num banco na frente do prédio, com o intuito de usufruir do sol da manhã. Cena que me pegou de jeito, tal era a semelhança entre ela e o vovô naquele instante. Não era idêntica só no olhar, mas também no jeito singelo de aproveitar o dia de forma serena, sem pressa, de corpo e alma.

De repente imaginei um retrato dos dois ali, de mãos dadas, sentados naqueles banquinhos de praia bem coloridos. A impressão que tive é que seus corpos já não se distinguiam, estavam misturados, formando uma pessoa só. Não conseguia vê-los nitidamente, de tão forte o clarão do sol, e foi em um desses momentos de pura imaginação que a história dos dois se perpetuou em mim. O retrato então virou poesia, foi publicado e postado na memória da família Lima com beleza singular, por gerações e gerações.

Por: Eduardo Queiroz
15/01/2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Manduca

Pai

No dia vinte e três de dezembro de 2004
Véspera de Natal
O tempo amanheceu choroso
A chuva fina e o vento frio nos trouxeram a notícia
Que o senhor havia partido
Busquei do nada aquela conhecida pergunta
Que todos fazem do seu próprio jeito
Sobre a nossa existência
E fiquei feliz em enxergar a sua imagem
Fortaleza de gostar e possuir uma verdadeira fé na vida
Fé sem fronteiras e enfeites
Fé de quem soube desbravar os caminhos com alegria e otimismo
Fé de quem plantou no planalto central uma árvore exuberante
Chamada família
E que colheu com tranquilidade e com prazer os seus frutos

Pai

Hoje o mundo vai ouvir um chorinho
Aquela música singela e feliz
Daquelas que o senhor ouvia e pedia bis
Porque o senhor nos deixou um importante ensinamento
Que irá perpetuar em gerações
A de valorizar o simples para ser universal
O simples encontro
O simples gesto de carinho
E a simples honestidade de ser gente de verdade

Pai

O seu sorriso desmoronou muralhas
E o seu coração
Ah! O seu coração!
Doce e pulsante, menino traquino
Nos deixou um lindo recado
- Descobrir a beleza da vida!
Adeus!........

Por: Newton Lima
23/12/2004