"Escuta!" Era assim que o papai dizia muitas vezes ao caminharmos pelas trilhas na Água Mineral..."Tá ouvindo? Aquele ali é o Quero-quero, olhe, um Anum!", às vezes eu arriscava “Pai, esse canto é do sabiá?” e ele já parando, braços pra trás, olhava bem pro alto das árvores, numa tentativa de, com seu assobio, travar um “diálogo”com o passarinho. Seguiamos pela trilha com os sentidos aguçados, queríamos sentir mais aquela maravilha; de vez em quando ele puxava o ar com mais vigor e o soltava mais devagar. Será que lembrando de suas caminhadas no Riacho da Lapa e Pé do Morro, ou mesmo em Brasília como carteiro? Às vezes era pelo silêncio que percebíamos melhor tudo. De repente, o papai se abaixava e dizia: “olhe aqui o capim gordura”, mais lá na frente: “Ó Dith, o tamanho do cupinzeiro!”, aí, de repente vinha um cheiro avassalador, e dizíamos quase ao mesmo tempo: “humm, que bom!!” e já olhando em volta, Seu Lima decodificava: “Imburana de cheiro”. Pra aquecer um pouco a conversa, eu provocava, “vamos Manoel, quer morar aqui, é?” É que eu estava muito afim de pegar um solzinho que brilhava “lá fora” , sim, explicando que os raios solares não adentram àquela mata, não inteiramente.
O olhar do Seu Lima. Um olhar de ternura que se nutria de tudo ao redor, acho que pouco ou nada lhe escapava; e suspirava cada vez mais calmamente como que consciente do sopro divino que nos fez e nos refaz a cada instante.
O seu jeito de ser numa frase: olhar de frente todas as experiências, sejam maravilhosas ou nem tanto, mas era só assim que ele sabia viver.
Por: Maria Edith Oliveira Lima
sexta-feira, 5 de março de 2010
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Maravilhoso, tia Edith! Tão singelo, tão bonito... Olha a foto dele com a vovó ali do lado! Imagino esse momento assim, com o vovô alegre, esperto e atento à natureza, com um dom que é restrito somente àqueles que conseguem apreciar o diferentes cantos dos passarinhos mesmo ao redor de carros, prédios e construções. Seu Lima e seu olhar, inesqeucíveis.
ResponderExcluirTia Edith,
ResponderExcluirAmei o texto! Como o Dudu mesmo citou, a foto escolhida para ilustrar a situação é perfeita!
Este tratado de contemplação à natureza fez um bem danado: refrescou minha alma e acalentou as memórias.
Beijinhos!
Hahahaha!
ResponderExcluirTia, só tenho que achar uma maravilha esse texto depois da conversa que tivemos há poucos dias... nossa, parece que foi combinado! Rs!
Que maravilha nossa união de pensamentos!
Como conversamos, antes de ler o texto, lembro muito bem do Vovô com um facão na mão abrindo caminho na Trilha da Capivara, na Água Mineral, toda hora parando com uma frase muito firme: "escuuute!" - e lá vinha uma bela aula de nomes de pássaros e plantas, narrando suas especificidades! Hahaha!
Esse lado do Vovô é fantástico e vejo que muitas pessoas da família o seguiram - como você, tia Edith!
Parabéns e fiquei muito feliz de agora ler seu texto!
Grande beijo!
Júnior
Tia Edith, suas palavras sempre me emocionam, ainda mais ao narrar um fato simples e ao mesmo tempo tão repleto de pureza e sintonia com os pequenos (grandes) detalhes da vida que eu tanto valorizo. Obrigada por compartilhar!
ResponderExcluirBeijos e beijos!
Dalila