quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Depoimento sobre Seu Lima

Meu primeiro contato com ele foi quando ele voltou de S.Paulo. Estivera lá trabalhando por algum tempo. Ele falava sobre Ademar de Barros, então governador do estado. Cantou para mim, garoto, esta canção muito cantada em S.Paulo. Era assim:

“Cheguei juntinho à sua porta
Não sei como consegui
Me disseram que tu não estavas
E que tu tinhas saído

Nada, nada, restou deste amor
São telhas de aranha que tecem a dor
O roseiral também murchou
E caindo pelo chão
Amarga a minha dor.”

Estas são as reminiscências que dele guardo do primeiro contato com ele.

Segundo contato: eu não estava mais em Ipueiras e, neste período, Seu Lima viajou para o Rio, à procura de trabalho. De regresso a Ipueiras, disse que havia trabalhado numa empresa para construção do Túnel do Catumbi. Quando vou para o Rio e passo neste túnel, lembro dele.

O noivado, pelo que lembro, foi rápido, mas lembro também que alegrou a mamãe. A propósito, eu estava em Cariré e a Fransquinha passou no trem, indo para Sobral, comprar o enxoval.

Terceiro contato: a construção da Casa. Toda a madeira do leito veio do Pé do Morro. Tendo residido algum tempo na nova casa, houve a venda da mesma para o Luís Bernardino. Seu Lima empregou o pouco dinheiro da venda da casa num pequeno comércio. O local era na praça da avenida. Não gostando de comércio resolveu sair de Ipueiras e residir, por algum tempo, no interior, em Rapa Canela, terras do rio Francisco. Lá fez uma experiência agrícola. Não deu certo e retornou a Ipueiras.

Quarto contato: voltando à cidade, foi residir numa casa alugada de seu Dola. Neste ínterim, colaborou em um trabalho agrícola. Neste tempo, o papai nos levou para o Pé do Morro. Aí Seu Lima foi morar em nossa casa. Lembro-me dele, à noite, indo à rede das crianças, cobrindo-as. Era inverno rigoroso e o piso úmido. Só um pai amável faria isto. Devo acentuar que, mesmo nas vicissitudes, Seu Lima não se queixava. Brotava dele sempre um sorriso.

Quinto contato: chegou JK e a construção de Brasília. Ele foi trabalhar nas Frentes de Serviços, como apontador. Era a construção da estrada Ipu-Ipueiras. Sentia-se bem neste trabalho. Finda a atividade com chegada da seca, observa como o fluxo migratório para Brasília era intenso. Seu Lima resolve ir para a Nova Capital. Lá se engaja nos Correios e Telégrafos. Aí firmado, mandou buscar a Fransquinha e as crianças. Acompanhei a Fransquinha até o aeroporto de Crateús.

Encerrando o sumário da minha vivência com Seu Lima aqui entre nós, só vou reencontrá-lo depois, em Brasília. Sempre alegre, sorridente e sem se queixar de nada. Por fim, bom esposo e ótimo pai.

Nota:
Optei por oferecer um testemunho vivencial com Seu Lima, até porque os valores e as virtudes dele estão inseridos neste depoimento.

Por: Pe. Geraldinho
Crateús, 21 de dezembro de 2009.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Jovial e Companheiro

Tão jovem que seus olhos sempre sorriam junto com sua boca, dando o tom certo da transparência de uma pessoa feliz! Feliz, em todos os momentos, superando quaisquer desafios. E eu o chamava carinhosamente de “rapaz” e ele me chamava respeitosamente de “Seu Nelson”...


E éramos companheiros. De caminhada e de viagem. Caminhou junto conosco, do nascimento ao desenvolvimento de nossos filhos. À primeira, Marina, carinhosamente chamava de “minha pequena” e, ao segundo, Eduardo, “meu Duduzinho”. Tamanhos eram o carinho e a atenção com os dois, que eu e minha esposa sentíamos paz, com a verdadeira proteção e presença de um pai, avô e sogro.

E por falar em viagem, fizemos muitas. Cada uma mais memorável que a outra. Sempre juntos, Seu Lima e Dona Francisca (sua merecedora eterna amada), acompanharam-nos sutil, amável e carinhosamente nos locais mais marcantes de nossas vidas. Especialmente, Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Santa Catarina.

E ele me ouvia: vamos passear rapaz? Mesmo cansado e com melhor opção para continuar repousando, ele me acompanhava... E eu também o ouvia, apesar de ter ingerido uns goles a mais, com a minha filha no pescoço, na quebra perigosa das ondas do mar da praia da Barra do Jucu-Es, “volte Seu Nelson”...

E Deus nos acompanhava, nos ouvia, nos guiava e mudava a natureza das coisas, quando programávamos loucuras do tipo a de ir pescar em alto mar de madrugada com pescadores profissionais, no Espírito Santo, colocando em nosso caminho um lavador de carros incompetente e mal humorado, e que por sua ameaça nos fez mudar de local de hospedagem e perder a viagem para o infinito mar...

E ele gostava de comprar pão, de jogar na loteria, de ir ao condomínio Verde (sempre que podia, eu o acompanhava e lhe fazia feliz, mesmo tendo que resistir capinar meu lote, em função de necessidade de priorizar outras coisinhas), de rezar, de falar e de ouvir muito, sempre com sabedoria...

Assim, foi uma parte do nosso belo relacionamento que não termina nunca, pois a sua lembrança é sempre eterna...

RAPAZ, você continuará sempre vivo na nossa lembrança. Essas são poucas, mas sinceras lembranças do seu eterno amigo e genro “Seu Nelson”...

Por: Nelson Barbosa Queiroz (19/12/09)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Era uma vez...




A tarde escurecia em nuances de azuis (entre o finíssimo azul e o azul-azul). Na 312 Norte, ouvia-se bem o cricrilar dos grilos. Latidos, metálicos e distantes, de cães que dialogavam entre si. Pelas manhãs e tardes, louva-deuses e cigarras e, já nessa hora, vagalumes. O transe épico que inaugurava a noite. Uma nuvem, uma idéia, uma percepção. Ficávamos na janela esperando pelo papai. Muitas vezes, quando meu pai chegava do trabalho, já estávamos todos banhados e cheirosos, com uma roupinha confortável. Esperávamos por novas histórias, relatos de aventuras: os cachorros, os ciganos, as codornas, os ônibus, as mangas. Outras vezes, ele chegava e eu ainda não estava em casa. Então, logo que eu abria a porta, cheirava o meu cabelo e dizia: “Hum... cheirinho de passarinho... Por onde tu andaste? Tu já estavas lá pelas manilhas, não é? Pois vá tomar um banho e depois venha conversar direito comigo”. Ih, caramba... Eu tinha a impressão que o papai sabia onde eu havia andado apenas cheirando o meu cabelo! Ali, próximo a mim, meu pai contava a história do Pavão Misterioso: o cara tirava de uma malinha um engenho que voava (o pavão) e que o levava para o quarto da donzela. Maravilha... Todos ouviam com tamanha atenção que, de vez em quando, fazia-se beliscar a luz das lâmpadas!

Caminhava a passos largos, eu pelejava para alcançá-lo, às vezes me valia disso: ia correndo na frente e, quando ele se aproximava, eu corria de novo. Ele achava graça. Quando chegava o ônibus, me apresentava ao motorista como o seu “secretário”. De um lance só, me fazia voar os três degraus da escada. Uau...!! Ensinava-me coisas como dar e receber dinheiro com a mão direita, calçar primeiro o pé direito, contar o troco (isso eu não podia errar de jeito nenhum), rezar antes de sair de casa, manias que ainda guardo até hoje. Ele tinha um poder mental quando dizia assim: “Cuidado para não quebrar esta jarra, segura direito” e a jarra me escorregava da mão e caía no chão com suco e tudo. Ave Maria... “Eu não te disse bicho mole...” Eu corria sem ter como escapulir. Peia na certa.

Naquele tempo, quando recebíamos cartas, a mamãe esperava o papai chegar para ler diante de todos, em voz emocionada, as notícias que chegavam do Ceará ou do Rio de Janeiro. Eram missivas demasiadamente sentimentais e que me faziam morrer de saudades, remorsos, culpas, sem que eu entendesse direito o porquê sobre tudo aquilo. Porém, certa vez, recebemos um telegrama e, quando se recebia um telegrama, não sendo caso de aniversário, ficávamos aflitos. Acho que havia um código, tipo umas cruzinhas, quando se tratava de morte. Minha mãe esperou o papai chegar e entregou para ele. Pediu que se sentasse numa poltrona. Eu fiquei de frente ao meu pai. Ele abriu, leu, pôs a mão esquerda sobre os olhos, baixou a cabeça e chorou copiosamente a morte do pai. Jamais me esqueci daquele dia porque ali eu aprendi a compreender meu pai como o homem simples que podemos construir em nós, sem torná-lo distante, como um mito. Foi nesse momento que, também, compreendi o seu sorriso largo e meigo.

Íamos juntos, todas as manhãs, abrir a bodega “Direto da Roça”, só ele sabia desarmar os segredos dos inúmeros cadeados e correntes que guardavam a loja. Dizia: “a gente precisa ter zelo com nossas coisas”. Enquanto me punha a trabalhar, ele contava da amizade sincera que tinha quando criança com seu irmão Luiz, motivo de orgulho de suas lembranças, e que sonhava que fosse o modelo da amizade entre os filhos. Abria o jornal e lia de tudo, antes de fazer das páginas meros embrulhos. Não desperdiçava. Gostava de tudo asseado. Tinha o sentido naturalmente ecológico, sem discursos. Era amigo dos carroceiros, dos garrafeiros, dos amoladores de facas, dos jornaleiros, dos sapateiros, dos relojoeiros, enfim, das pessoas que consertavam e reaproveitavam as coisas.

Houve um tempo em que eu, bancário, resolvi morar em pensões na Asa Sul e não sei como o meu pai me encontrava, queria saber como eu estava e dizia: “Tu nem dormiu direito esta noite!”. Tinha o tino certo. Outra vez, eu dava aulas no Colégio Alvorada e a coordenadora, a certa altura do horário, me disse: “Tem um senhor que quer falar com você na sala de professores”. Fui. Ao chegar, fiquei surpreso, porque nem sabia que ele tinha conhecimento dos dias em que eu dava aulas no colégio. Foi logo dizendo: “Tu não tens mais pai e mãe não? Não tomas mais a benção... ê desse jeito... hum...” E balançava a cabeça negativamente. Convidava-me para ir a sua casa porque a “Fransquinha” tinha feito um gostoso almoço. Eu ria, eu reclamava, mas era obediente às suas ordens, beijava a sua mão (direita!) ao pedir a benção e lhe fazia massagens nos ombros. Ele me compreendia. Contava um sonho comigo numa casa branca... Uma pomba que ao voar era Nossa Senhora... Era sempre assim: Era uma vez...

Por: Francisco de Assis Oliveira Lima - 23/12/09

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Visita alegre

Entre as lembranças mais prazerosas que eu tenho da minha vida familiar, são as visitas que o Seu Lima costumava fazer à minha casa, ao meu lar. Quando nos visitava era um momento muito feliz na nossa rotina. Ele chegava sempre sorrindo (parecia até que havia ganho na Mega) e nos abraçava com o seu jeito gentil e carinhoso.

Se fosse dizer de todas as visitas precisaria escrever muitos livros. Mas, posso contar algumas que vão surgindo à minha memória. Lembro tanto das visitas que ele nos fazia quando morávamos na Asa Sul e também depois na Asa Norte, quando ficou mais assíduo, devido à proximidade da sua casa. Ele gostava de conversar com as crianças e observá-las.

Assim que chegava costumava dizer (era a cara dele): “Ô, Seu Miranda! Que bom ver você . Que bom visitar essa casa abençoada!. Que bom ver essas crianças tão lindas!” Ora, se ele achava bom nos visitar, mais ainda nós nos sentíamos presenteados com a sua visita.

Ele sempre trazia alguma “contribuição”. Primeiramente, o grande presente era aquele sorriso largo, quase toda manhã, trazendo a bênção e palavras de incentivo a todos nós e ao meu trabalho. Mas, trazia outros deliciosos presentes, e com muito orgulho dizia: “Hum, tome essas tapioquinhas que a Quinha fez pra vocês... estão muito gostosas!”

Lembro também das visitas que ele fazia ao meu trabalho. Sempre que eu montava um restaurante novo, queria acompanhar o processo, e participar. Ele sempre dava idéias, com uma sabedoria própria.

Lembro bem das visitas que ele fez na montagem do primeiro, o Pizzarella , e também no Costelas, no Aerobar, entre outros. Eu percebia que ele acompanhava com prazer e via nos seus olhos o quanto ficava feliz. Ele dizia para as pessoas que o seu genro era um empreendedor.

Eu notava que ele observava os detalhes da obra, que muitas vezes me passavam despercebidos, tirava dúvidas e dava idéias, com muita simplicidade e sabedoria. Aquilo me deixava muito feliz principalmente por percebê-lo à vontade. Eu também me sentia um privilegiado por ter alguém que se interessava para dizer, e trazer coisas boas, simplesmente com o sentido de ajudar.

Aquilo pra mim era muito prazeroso, principalmente por ouvir o meu sogro dizer: “Seu Miranda, não entendo do seu ramo, mas qualquer coisa que precisar de mim, pode falar, estou aqui pra ajudar.” Mas, o interessante é que, mesmo sem querer abusar da sua boa vontade, ele sempre chegava na hora certa: era para me acompanhar ao banco, ficar um pouco na obra, quando eu precisava sair, e principalmente palpitar. Tinha sempre uma boa observação a fazer. O mais importante de tudo era o seu grande otimismo: “Seu Miranda, vai dar certo!”

Como eram pertinentes as suas visitas. Lembro de outra vez que ele me visitou na obra do Fogareiro na Asa Norte, prestes a ser inaugurado, e feliz, com aquele sorriso largo de sempre. O meu sócio estava comigo. Ele nos abraçou e deu parabéns. Eu, muito feliz com a bela visita, disse para o sócio: “Esse é o meu segundo pai”. O Furquim, brincalhão, disse para ele: “Como o senhor está cheiroso! Que é isso, Seu Lima, a Dona Fransquinha sabe que o senhor anda cheiroso por aí, assim? Ela não tem ciúme?” E ele deu aquela risada gostosa, e respondeu: “Ela confia em mim!”

E nós ali vimos que ele falou de toda a pureza da sua alma, pois a resposta espontânea e rápida é própria dos que são puros e fiéis. Pelo menos no caso do Seu Lima. Ele era sincero. Ali não tinha sombra de mentira.

Gostaria também de dizer que as viagens mais marcantes que fiz com minha família - esposa e filhos - foram acompanhadas pelas presenças do Seu Lima e Dona Fransquinha. Nas viagens que fazíamos eu sempre o chamava de “General”, pois era uma maneira carinhosa de dizer que ele era a autoridade ali. Ele, com um sorriso tímido, só respondia: “Eu hein, Seu Miranda!”

Eu me sentia revigorado na fé com a presença do meu sogro. Ele costumava dizer olhando pro Céu e levantando as mãos (era a cara dele ) : “Senhor, aumenta a minha fé!”; outra frase era: “Glórias a Ti, Senhor” Eu me emocionava com a pureza e fé daquele homem! Aprendi com o Seu Lima que essas frases têm poder. Sempre lembro e repito como ele: “Senhor, aumenta a minha fé!”; ou “Glórias a Ti, Senhor!”

Teria muitas e muitas coisas pra falar, sobre esse homem sábio. Todo momento que convivi com o Seu Lima, foi de aprendizado e crescimento. Relembrando tudo isso, percebo o quanto ele era amigo, companheiro e sangue bom. Sei que em todo empreendimento não só o meu, como o de todos, ele torcia pra dar certo. Simplesmente porque ele era um homem que admirava o trabalho e as pessoas idealistas.

Hoje, quero dessa forma lembrá-lo como também agradecer a Deus a oportunidade de ter conhecido alguém como o seu Lima , homem simples e de fé. Finalmente, não posso deixar de comentar outra marca deixada por ele – a de esposo e de pai de família, amoroso e dedicado. Isso foi marcante para mim, e creio que para toda a família: a sua alegria era estar com a Dona Fransquinha e reunido com a família.

Nesses encontros ele sempre me dava a palavra dizendo: “agora o seu Miranda vai falar”. Pois é, Seu Lima. Nem sempre eu falava, mas hoje me dispus. Eu falei, mas do senhor. Aliás, no senhor. Quero dizer que foi muito importante a sua convivência para mim. Ter-lhe conhecido foi uma das maiores alegrias da minha vida. Obrigado pelo seu bom exemplo.

Do seu sempre e eterno genro: João Miranda Lima.
Brasília, dezembro de 2009.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Esse é que é o tipo!

Outro dia estava eu a refletir sobre atitudes. Eu pensava como há pessoas que sabem agir no momento certo (e talvez nem se dão conta que são assim), por uma iluminação, ou por algo que vem de dentro delas, e espontaneamente se lançam para agir. Essas são pessoas naturalmente de atitude.

O Seu Lima era um profundo admirador das pessoas de atitude. Ele sempre dizia que gostava de gente de ação. E por talvez não conseguir exprimir exatamente o que queria dizer, quando presenciava alguém confiável ou que admirava por ser trabalhador, ou de coragem, ele simplificava com a expressão: “Esse é que é o tipo!”

Mas, de atitude mesmo era ele, o Seu Lima.

Lembro de alguns fatos que presenciei e que me surpreenderam por denotar coragem e decisão. Um deles foi quando estávamos indo à Missa num domingo de manhã, a pé, e vimos um homem empurrando uma carroça, e, por alguma razão (ou sem razão) voltou-se enfurecido contra o garoto que o acompanhava ( parecia ter entre sete ou oito anos).

O carroceiro esbravejava e gritava palavras de baixo calão com a criança, até que, não satisfeito com isso, resolveu lançar mão de um cabo de vassoura e bater na cabeça do menino.

Seu Lima, ao presenciar a cena não vacilou. Num só fôlego e munido de toda autoridade, gritou: “Alto lá! Pára por aí!” O homem, literalmente paralisado na sua ação, voltou-se surpreso para o nosso lado e parecia não acreditar no que estava ouvindo. Mas, logo se recuperou e gritou exasperado por ter sido tolhido no meio do seu ato violento: “Quem é o senhor?”

Meu pai respondeu: “Eu sou também um pai de família e não vou permitir que o senhor faça isso com uma criança.”. Mas, o homem voltou ao seu estado de ira e berrava mais dizendo que ele não tinha que se meter, pois o filho era dele e poderia fazer o que bem entendesse.

A essas alturas eu já olhava para os lados procurando alguém que pudesse nos ajudar, caso o homem resolvesse transferir o foco da sua ira. E realmente, o carroceiro se dirigiu a passos largos para o lado do meu pai. Porém, nesse momento o Seu Lima o advertiu com voz forte e firme que ele não desse mais nenhum passo à frente pois se tentasse fazer qualquer coisa com ele ou com o menino que o denunciaria ao Juizado de Menores quando poderia até perder o direito à guarda do filho. E aproveitou para falar que um dia aquela criança poderia ajudá-lo quando crescesse. Que criança é Bênção de Deus.

Por incrível que pareça o carroceiro pareceu refletir e se voltou para o garoto, dizendo: “vambora meu filho, que tem muita gente se metendo aqui”, e, segurou a mão do menino e o colocou sentado na carroça. E saiu.

Eu fiquei algum tempo calada pensando na habilidade que o meu pai teve diante do pouco tempo para persuadir o homem. Sei que ninguém pode garantir que depois ele não bateria na criança. Mas, naquele momento, diante do impacto causado pelo poder, não somente das palavras, mas também da decisão, ficou em mim a sensação de que aquele carroceiro, na sua ignorância e truculência, talvez tenha refletido pela primeira vez na vida sobre a possibilidade de perder o direito ao filho, e talvez isso o tenha paralisado.

Sorrio comigo mesma ao lembrar do Seu Lima que, na sua simplicidade, tinha a capacidade de se indignar e tomar atitude com coisas que, talvez, para outras pessoas não merecessem mais que um menear de cabeça, e o prosseguimento em sua caminhada.

Acho que quando o Seu Lima chegou lá no céu, foi recepcionado por um coro de anjos que o saudaram alegremente e em grande estilo, gritando a uma só voz: “Esse é que é o tipo!”

Lígia - 18/12/09

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

As graças do papai



Adorava o jeito como o papai se expressava, começando por suas analogias, metáforas e outras figuras de linguagem. Ainda na nossa adolescência, o Zé Romildo tinha um amigo bem esguio, que sempre pintava no pedaço. Seu Lima, ao vê-los chegar da janela do Bloco C, comentou com o pessoal de casa: “lá vem o Zé com o Pernas de Grampo". O Santos, amigo do Valner, que era negro e que também sempre estava conosco, tímido que só ele, papai o chamava de São Benedito. Por sua vez, a senhora roliça que vivia na janela do quinto andar do prédio em frente ao nosso, ganhou o apelido de Mãe da Lua.

Mas era quando estava internado que a inspiração do Seu Lima aparecia de forma mais especial. Não sei se por impaciência ou por querer levar a situação pelo lado positivo, mas o fato é que nesses dias ele não deixava as intervenções sinceras de lado, misturando suas dores com um humor estilo “sem querer querendo”. De tempos em tempos, precisava passar por uma bateria de exames, o que o deixava ligeiramente inquieto e, claro, sem meias palavras.

A primeira passagem que me vem à cabeça é aquela na qual o enfermeiro, que tentava aplicar, sem sucesso, uma injeção no seu braço, foi logo interrompido por ele: “filho, vá chamar alguém que saiba fazer esse serviço”. O jovem, muito bem educado, respondeu: “Seu Lima, não há necessidade, logo vamos conseguir terminar o exame.” Mais algumas agulhadas em vão e o papai replicou de forma ingênua: “moço, chame um médico, por favor, o senhor não tem culpa de ser incompetente”.

Papai era muito puro. Entre idas e vindas, passamos por momentos marcantes em quartos de hospital. Fizemos até um rodízio no qual Dona Francisca, filhos e netos, tiveram a oportunidade de passar bons períodos do dia ao seu lado. Certa vez, ele me pediu para fazer uma massagem nos seus pés - Seu Lima adorava esse mimo... Nesta época, papai sofria bastante com frequentes faltas de ar e no dia anterior havia deixado todos preocupados em consequência de uma daquelas crises, por isso estava bem alerta para acudi-lo se algo acontecesse. Sereno, me pediu e rezamos o terço juntos, que horas mais tarde virou rosário e, caso exista outra denominação para orações adiante, me digam; porque rezamos até estas.

Papai, com sua brilhante intuição, entendia o meu sentimento e tentava me reconfortar ao máximo. Ali ficamos nós dois, por longa data, dando forças um ao outro. Massageando os seus pés, sentia seus dedos esticados por conta do reumatismo, mas sabia que, apesar dos pesares, estava bem relaxado. O seu sorriso não mentia. Seus olhos brilhavam e, como namorados, se despediram um do outro lentamente, até se fecharem por completo ao adormecer. Estava em estado de graça. Lindo, sereno e em paz.

Ceiça e Dudu – 18/12/09

Olhar

A passos rápidos, com a farda dos Correios e a bolsa cheia de cartas, lá se ia o papai tentar um acordo financeiro com o Objetivo-SP-B. Com certeza fez uma pausa no trabalho, já que era de manhã. Eu, do lado de cá, o via através da cerca, era a hora do intervalo do 3º ano. As escadarias lotadas de estudantes comendo hambúrguer com refri. Aquele cheiro de misto quente vindo da lanchonete, os halls fascinantes e os bate-papos me levavam a uma sensação de “não é bem essa a minha tribo”, naquele instante ao menos, digo de passagem: era raro eu fazer um lanche ali (no have money!).

Ah, eu quis sair correndo e abraçá-lo, lembrei de quando eu criança ele chegava do trabalho, me abraçava e rodava comigo. Mas dali ele não me via, só eu tive o privilégio de o ver de longe. Seu Lima em mais uma empreitada rumo a conversações “promissórias”. Como eu ia dizendo, tinha bedéis por perto, então fiquei ali, “pregada” na cerca acompanhando os passos dele. De maneira decidida e rápida ele atravessou da 712 para a 912. Observei, seus cabelos pretos ainda, uma mecha caindo na testa, postura bonita de caminhada (ainda que a bolsa de cartas o fizesse pender pro lado direito), farda cor caqui e sapatos pretos; o carteiro, sempre em frente, frente às questões pra resolver, era ruim de ele desistir, hein!

Pendências não eram a praia dele. Lembro de quando ia aos “armazéns” da vida, no Mineiro... Negociar com o dono, era fechando uma conta e abrindo outra; ainda assim tinha dias de perrengue, em que eu e irmãos ficávamos na janela torcendo pro papai surgir na ponta da “Planalto” trazendo pacote de arroz, banana, pão... Era muito legal, a gente descia a escada correndo; então ele vinha com uma caixa no ombro, eu e Francisco abraçávamos as pernas dele e ele dizia ofegante “peraí...” com aquele semblante bonito, e expirava só pela boca como que querendo dizer “cheguei!”, provavelmente após esperar muito o TCB(ônibus).

O papai tinha uma coisa marcante, era um negociador de primeira e tinha que ser olho no olho, num tempo em que a palavra de uma pessoa valia muito, e deveria ser honrada. Realmente uma marca dele, encarar os problemas, conversar, tentar, esgotar esforços. O combustível dele não podia ser outro, era a “tal” da Fé, que vez por outra, ele pedia a Deus em alto e bom som. E não adiantava dizer pra ele que tal coisa era improvável. Hoje, recuperando fatos na memória, acho graça do Manduca (eu brincava muito, o chamando assim). Falava “Manduca, a Celina ligou de novo”, e ele bem rápido dizia “O que ela quer comigo?” eu “sei lá, sobre um carnê da Consolata...” ele “não fiz trato nenhum com ela”, “coitada da Celina”. Cara, eu e a mamãe caíamos na risada.

Mas, ó, ele era intuitivo, e isso é algo de outra ordem; ele via algo mais, além do óbvio, por isso se lançava, e mergulhava mais fundo.

Pai, sementes continuam brotando, preparou bem o solo hein! Seu sorriso, pra sempre, seu olhar no horizonte, sempre buscando no Infinito as soluções.

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Observação: Naquele momento, de contexto pessoal, o Objetivo me causava estranheza, porém, num contexto amplo, amei estudar lá, fui descobrindo tantos colegas, amigos incríveis, diferentes, legais! Quanta saudade. E os professores? A cidade toda os admirava. Sério! Por serem irreverentes nas aulas, caras incríveis!

Maria Edith - 17/12/09

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O “Manuel Lima”: Um Verdadeiro Lince Sagrado

No ano de 1948, quando a família de Francisco Bernardino, concentrava a propriedade de muitas terras da região Noroeste do sertão cearense, entre as mais importantes: - Fazenda do Riacho da Lapa, Fazenda Livramento, Fazenda São José de Lontras, Fazenda do Mulungu, Fazenda de São Benedito, Fazenda do Rapa Canela e Fazenda da Matriz, - vivia o famoso “Manoel Pereira Lima”, um dos quatorze filhos dessa prestigiosa família. Nesse sertão ele nasceu, exatamente na Fazenda Riacho da Lapa, e entre os bravos nordestinos se criou.

Por que o “Manduca Lima” recebeu esse insólito apelido? Manducar no linguajar sertanejo significava a bravura de um lince no momento de devorar sua presa. E os linces, ágeis felinos de orelhas empinadas que habitavam várias partes das fazendas de Francisco Bernardino, há muitos séculos foram folcloricamente considerados animais privilegiados por sua visão de alta acuidade, o que lhes permitia “enxergar bem a grandes distâncias, tal como acontece com as aves pescadoras e as assim chamadas "aves de rapina", cuja acuidade visual é de 28 segundos de arco, o dobro da nossa visão, que não passa de 1 minuto de arco.

O “Manduca Lima”, então tido como verdadeiro lince, porque enxergava mais longe do que os demais irmãos, capatazes e empregados da fazenda, por cuja vista penetrante dele, diziam os antigos, que enxergava através das paredes, geralmente se dedicava a tomar banho nas cachoeiras que caiam das serras, nadava nos açudes das fazendas e no rio Jatobá. Diariamente, também amansava várias raças de cavalos selvagens, derrubando bois agressivos à unha, justificando tal crença local. A noite, sob um manto de estrelas, ele gostava de ouvir estórias na varanda da grande casa que dava para o um enorme açude de águas cristalinas. Nas manhãs, quando o dia clareava, com a chegada do sol morno, ele ficava maravilhado com os milhares de grandiosos coros de pássaros albergado nos abacateiros, mangueiras e goiabeiras, essas últimas com frutas vermelhas e cheirosas.

Esse “Manduca Lima” foi logo caindo nas graças de Francisca, filha de João José de Lima, o grande “Dão Rosário”, um rico comerciante de tecidos, que estava estabelecido no Município de Ipueiras-Ce, detentor de uma fazenda denominada “Papagaio” e outra chamada de “Pé do Morro”, o qual se destacou como vereador do município, por ter semeado os principais princípios da democracia no município. A criação dos sete dos dez filhos de Manoel Lima, de Rapa Canela (em 1949) a de Ipueiras (em 1960) ocorreu quando essas famílias começaram a destacar-se pela criação de gado, substituindo lentamente essa cultura em virtude da relevância da plantação de feijão e algodão, que em meados de 1960 começavam a decair, talvez inexoravelmente. Essa tendência, que consumiu quase a totalidade das propriedades das duas famílias ao longo da História passada, parece ser uma lei natural, que provavelmente continuará a ocorrer ao longo de toda a História futura, constituindo ciclos que os economistas denominam "a espiral da História", hoje, já comprovada e tão bem esmiuçada e esquematizada na história das duas famílias.

O objetivo do Manoel Lima era o de possibilitar a todos os filhos o saber. O que era importante é a educação escolar, a ciência e como eram feitas as descobertas científicas, já que em suas “estórias” contadas na calçada de nossa casa, sob o luar do sertão, esmiuçava como ninguém o conto do “Pavão Misterioso”. O conto de meu pai se distinguia geralmente entre todos os contos das pessoas daquela redondeza. Era a realização de experimentos para que os leigos e analfabetos como ele os ouvissem e os letrados como o sacerdote, prefeito, juizes e professores se surpreendessem com a grande sabedoria do "Seu Lima". Então ali estava explicado porque era chamado de “Manduca”. O verdadeiro lince, porque enxergava mais longe do que os demais mortais de sua localidade e convivência.

Os grandes sábios da família de meu pai, geralmente, dedicavam-se a vários campos do saber autodidata. Nesse contexto, ninguém ultrapassou o grande Manoel Lima, justificado pela sabedoria quase completa a respeito de sua incomparável obra. Meu pai ensinava com maestria todos os familiares a evoluir na vida para uma sociedade moderna. Portanto, é quase impossível imaginar como seria o nosso dia-a-dia, hoje, sem o exemplo de vida do "Seu Lima".

Essas qualidades foram muito importantes após a decisão de deixar esposa e sete filhos no Ceará e aventurar-se na construção da nova capital do país, alterando-se radicalmente as finalidades dos prognósticos para quem havia nascido para ser um trabalhador rural. O Grande Pai, Manoel Lima, talvez o mais completo Chefe de Família dos tempos modernos, começou sua vida primeiro como trabalhador de fazenda nas cidades de Marílha e Mirasol, São Paulo, e em seguida como pedreiro no “túnel Rebouças”, Rio de Janeiro, após idas e vindas, tornou-se balconista de um barzinho do seu sobrinho Fransquin e, como tal, encantou os seus clientes com a sua palestra encantadora, fez muitos amigos e estudou todo o tipo de cultura brasileira. Durante o atendimento dos freqüentadores, conheceu informações sobre o mercado de trabalho em Brasília, o que ajudou a arranjar uma colocação como servidor público dos Correios e Telégrafos.

Hoje, pela sua decisão sábia e muito importante, descobrimos investimentos muito rentáveis para os filhos, netos e bisnetos. Gloriosos tempos do Manoel Lima, sem dúvida. Memoráveis experiências do ágil e carinhoso companheiro da D. Francisca, pai corajoso como um lince de orelhas empinadas que habitam nossos corações. “Seu Lima” foi em muitos anos o herói de seus privilegiados familiares. Isso porque, tinha uma inteligência inigualável que foi beneficiada por sua visão de alta acuidade, o que lhes permitiu enxergar bem e resolver os grandes problemas dos filhos, netos e bisnetos.

Meu pai, carinhoso professor da vida familiar, que propagou o bem viver na fazenda Riacho da Lapa, nos sítios do Rapa Canela e Pé do Morro, bem como, também em Ipueiras, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, aprendeu muita a cultura geral de nosso país . Sem dúvida, aprendeu a ler e escrever muito bem e aperfeiçoou sua fé ensinando como poucos a palavra de Deus. Descobriu o segredo de levar as pessoas à integração comunitária, que ele chamava de "Momento Sagrado no Planalto Central", demonstrando a sua existência no que pregava, ele fascinava os que lhe rodeavam, sendo o melhor exemplo de um perfeito comandante da Família Lima.

Ele nos permitiu apresentar nossa vida à honestidade, a ética, a dignidade e o respeito às Leis do Criador. Meu Pai injetou nas almas de seus descendentes as melhores energias positivas do universo, assunto que eu havia descoberto, ainda, nos tempos de minha infância e chamava de "água santificada", não sei por quê. Assim, hoje ao pedir nos restaurantes o precioso líquido, chamo de "água do Sagrado Pai". E depois, “verifiquei que era bom para iluminar minha vida". Assim, para usar a linguagem bíblica, assunto de que “Seu Lima” era profundo conhecedor, constatei que Deus concedeu ao meu grande pai: a graça de ele aceitar com serenidade aquilo que não podia modificar; a coragem para ele mudar o que devia ser mudado(e realmente ele mudou) e, ele sabiamente distinguiu uma coisa da outra.

Nas suas andanças por todas as quadras de Brasília, como carteiro, descobriu que o campo das Relações Humanas é da mais alta relevância, tendo em vista o grande conhecimento adquirido. Como se isso não bastasse, tornou-se um importante membro da paróquia N. S. Consolata. Foi um dos fundadores da Ordem dos Vicentinos e terminou sua passagem de vida, aqui na terra, como personalidade da mais cobiçada cátedra de ser humano santificado por Deus.

O Universo é uma grandeza. "Seu Lima" é outra grandeza. Assim: O Universo é uma grandeza tão grande como "Seu Lima"também o é. No dia 23 de dezembro, pertinho da data em que o Filho de Deus Nasceu na terra, meu pai também nasceu para o Paraíso Eterno. "'Manoel Lima, quando na terra estava, era simplesmente um ser humano maravilhoso, um instrumento de Deus para todos nós, que Deus te abençõe muito, quero te agradecer por ter o privilégio e a graça de ser seu filho. Meu Pai Foi e será sempre uma grande benção de Deus.

Obrigado a todos pela atenção,
Valner pra Valer.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Clube do Verde




Dizem as más línguas que, em determinado período do dia, com uma determinada velocidade constante, é possível passar pela W3 Norte sem parar em nenhum sinal vermelho. Pois bem, lanço o desafio e pago um vale-cd, preferencialmente para comprar o “Linha da Fronteira” do tio Newton, para quem conseguir tal proeza.

Dia desses, saí do meu estágio morrendo de sede e tive uma idéia: "por que não beber um copão de guaraná naquela lanchonete natureba?" Desviei meu rumo de volta pra casa, cheio de expectativa de relaxar depois de um dia de trabalho indigesto, mas não teve jeito. Parei em um sinal na altura do McDonald´s da 506 Norte, o que me deixou tão enfurecido com a demora que acabei comprando uma Mc Oferta e voltando pra casa.

“Eduardo, não coma coisa pesada à noite, dá indigestão.” Eu não sei por que a gente ainda cisma em teimar com nossos pais... Escutemos a voz da experiência de uma vez! Para quem já estava com o estômago revirado por intempéries do ambiente de trabalho, era meio caminho andado: tive uma noite de sono pesado e acordava o tempo todo. Já lá pelas oito da manhã, com a chuva fina implorando pelo meu descanso, finalmente fui recompensado pela noite mal dormida com um sonho intrigante.

Era uma árvore torta, com troncos que se projetavam de maneira vacilante em busca da luz do sol, bem como imagino que deviam ser os caminhos traçados por sua raiz debaixo do chão, a fim de buscar água e minerais no solo pobre do cerrado. Vista da ponta dos meus pés, a reconheci de supetão: era o “Clube do Verde”, a bendita árvore que eu, a Marina e a Laís havíamos adotado para passar bons momentos da nossa infância rente ao quebra-mola do Bloco A da 312.

Naquele momento, me vi no topo da árvore e senti a incrível sensação de estar também no topo do mundo. Percebi, mais uma vez, o quanto a natureza é maravilhosa e o quanto ela nos faz bem. Depois de tentar inutilmente desenhar a cena que vivenciei no sonho olhando para a mangueira na frente da janela da sala, imediatamente pensei no vovô: “Que cabra mais danado!”

Certamente ele já sabia disso há muito tempo. Andava apressado – às vezes até sem paciência – para nos convencer do seu mais bonito projeto. Não tinha tempo a perder: “Quinha, Dith, tenho fé que vai dar certo! Concinha, Tontonho, Zé Valdo, o que estamos esperando? Lilinha, Zé Romildo, me acompanham até lá? Chico, João José, Newtinho, vamos logo aparar aquele mato!”

E assim que os primeiros tijolos foram empilhados e que as reuniões no “condomingo” já haviam se tornado cultura dos Lima, ele sabia: havia plantado mais uma árvore, bem ali, no seu Clube do Verde. "Ô servicinho bem feito..."

Dudu