Você conhece a regra do bem-viver? Perguntava o meu pai. Eu respondia: “não, conheço não, como é?” Ele entrava com outra história, disfarçava e não respondia. Falava de uma professora muito rigorosa que lhe havia ensinado o “beabá” e que usava de uma palmatória para que aprendesse. Depois emendava a conversa com uma série de versos que essa professora usava para o ensino das primeiras letras: “Mel com pão, pão com mel (...) se não quer o pão, quer o mel?” Uma coisa mais ou menos assim, também nem me lembro tanto, pois essas conversas se davam quando eu tinha uns 12 ou 13 anos e, enquanto ele me servia, pela manhã, antes de ir ao colégio, um prato com pedaços de pão, molhados ao leite e com muito açúcar. Muito bom! Também ele preparava uma farofa de ovos com pedaços de banana que era uma delícia! Eu ouvia aquelas histórias com prazer, enquanto saboreava rapidamente o café, além de prestar viva atenção ao relógio. Hora de ir, só passava por ele se o uniforme do colégio estivesse impecável. “Seja feliz!”, dizia ele, à porta. Escada ou elevador? Enquanto isso, respondia: “Tá bom pai, tchau”.
Eu ia para escola e já, lá na frente, olhava para trás, para o bloco, pois sabia e tinha a certeza que o meu pai me observava da janela do apartamento. Acenávamos um para o outro. Agora eu podia chutar os cascalhos e cristais, sobras de obras, respirar a umidade da aurora e apreciar o revoar dos passarinhos ao me aproximar das moitas de capim-gordura, muito comuns à época. Enquanto caminhava, a mim se juntavam outros colegas da escola, e eu pensava naquela história da “regra do bem-viver”: seria mesmo possível uma regra para o bem-viver? Seria como mandamentos? Seriam ensinamentos? Por que o meu pai não dizia sobre qual e como seria essa tal regra? Égua... Quantas indagações cabem na vida? Há um manual para o animal viver? Quando eu chegava à escola pensava: “a regra do bem-viver deve ser bem diferente de tudo isso...” E ficava “na minha”, como a publicar um ato secreto. Credo.
Essa tal regra que meu pai dizia e não dizia me aproximou dos mistérios e me distanciou dos ministérios! Tem me valido uma curiosidade que me custa caro, porém a sensação é de ir ao encontro de um raríssimo tesouro. Na verdade, é um ponto de construção e desconstrução, ou de mutação, assim como foram os inúmeros paradigmas que sustentaram a sociedade há um tempo. Descobri que o meu pai também brincava com essa história, pois ele não podia dizer para mim o que era porque também não acreditava que fosse somente aquilo que aprendera. Havia muito mais do que aquele aprender traumático que se resvalou em sua memória. E ele resolveu reinventar e encarnar a regra do bem viver... Com um coração de criança, o velho sorriso estampado no rosto, as veias estufadas pelo trabalho e os olhos miúdos de um sonhador, pôs-se a ensinar como construir um mundo melhor, com a simplicidade das coisas, alegria, amor e prazer. Servir e respeitar o outro. Descansar bem do dia. Acordar com confiança. Ser “positivo”, como diria. De quebra, pegava o violão e cantarolava:
“Eu fui às touradas em Madri
Parará tim bum bum bum
Parará tim bum bum bum
(...)
Eu conheci uma espanhola
Natural da Catalunha...”
Por: Francisco de Assis Oliveira Lima
terça-feira, 23 de março de 2010
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Cara, tio Chico! Que texto bom de se ler, hein!
ResponderExcluirA regra do bem-viver... Tem tudo a ver com o nosso querido vovô, que ainda vive em nossos corações e mentes...
Mais importante, bem-vive sentado ao lado do Grande Pai. Lembro de quando ele rezava o terço conosco, e dizia em alta voz o final do Credo: "...na vida eterna, amém."
É, Seu Lima... o sr. sabe a regra do bem-viver melhor do que ningúem!
Parabéns, tio Chico! Texto espetacular!
Forte abraço,
Léo
Demais! Muito bom!!! e ainda tem essa história da espanhola, essa música que cantávamos na peça do Francisco Carlos...!!! coincidência!
ResponderExcluirDemais, Chico!
bjo
Fabianna