sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Seu Lima: o contador de histórias

Lembro-me com saudade dos tempos de pequena, no Ceará, da família reunida antes de dormir: Seu Lima, Dona Francisca, e a “reca de menino”: João Batista, o mais velho, o Zé Romildo, o Zé Valner, eu (Lígia), a Conceição, o Tontonho, e o mais novo, o pequeno João José, ainda bebê.

Após a janta, o papai e a mamãe reuniam a prole para rezar o Terço. Era um momento sagrado. Ninguém estava dispensado. Eles “puxavam” e todos respondíamos. Ah, e de joelhos. Ninguém reclamava, e até procurava apressar já pensando na atividade final antes de dormir. Quando terminava a Salve-Rainha falávamos em uníssono: “Bênça Papai do Céu, Bênça Mamãe do Céu”, e em seguida todos corriam para pedir a Bênção dos pais - se revezando uns para o papai e outros para a mamãe e depois vice-versa.

As luzes da cidade eram apagadas às 9 horas da noite, então o clima era propício para aguçar a atenção. Acendia-se a lamparina, e aí pronto, era só sentar nos degraus da porta, ou ali no chão mesmo, dentro de casa. Chegara o momento tão esperado: ouvir as histórias que o Seu Lima contava. Toda noite, a seleta platéia escutava com ansiedade e emoção as belíssimas histórias do papai. Era imperdível. Ninguém dormia até a história terminar.

A mamãe se afastava para uma rede perto dali para fazer o neném dormir, mas também escutava as histórias do papai e as poucas interferências de algum perguntador que queria confirmar se era aquilo mesmo. Mas logo era interrompido pelos outros: “Psiu! Depois você pergunta! Esse minino não entende nada!” Mas logo se voltava ao clima de atenção, silenciando para não perder nadinha da história.

As histórias iam desde “O Pavão Misterioso”, “A Lâmpada Encantada” até histórias de santos. Enfim, era um vasto repertório. Mas o motivo de tanto sucesso era como o papai contava. Ele tinha um talento todo especial, talvez desenvolvido pela necessidade de entreter tanta criança (e porque sempre tinha um neném pra dormir).

Ele unia a entonação de acordo com cada momento da história criando o clima certo. Também fazia a sonoplastia, digna de um Oscar. Até hoje não esqueço da emoção que sentia quando ele imitava o “barulho silencioso” do avião que o João Evangelista inventou para roubar a princesa Creusa, da Turquia. Os olhos de cada um de nós brilhavam que pareciam duas “bilas”. Era um momento de emoção e suspense. Afinal o rapaz tinha se apaixonado pela princesa e precisava entrar no Palácio com esse Invento que ele tinha criado, sem fazer barulho, pois senão o Conde acordava (e ele era muito feroz). Havia muitos guardas armados até os dentes; e ele tinha pouquíssimo tempo para convencer a princesa. Ah, e ainda tinha na manga um lenço com um produto também inventado por ele, que usaria no caso de a princesa se assustar e gritar. Era realmente muita emoção.

Mas às vezes a história surtia uma emoção maior. Certa noite Seu Lima foi contar a história da lenda para escolher um papa. Rezava a lenda que quem passasse embaixo do sino daquela cidade e ele tocasse naquele exato momento, é porque esse homem tinha sido o eleito de Deus para ser o papa.

Estava meu pai nessa altura da história quando, de repente, todos nos assustamos com um barulho de choro. Olhamos apressados para o lado e vimos o Zé Romildo já de pé e aos prantos. A mamãe que estava na rede gritou de lá: “o que fizeram com esse menino? ” Alguém gritou: “É que ele quer ser o papa”. Isso foi o suficiente para os irmãos chamá-lo assim durante grande parte da sua infância.

Muitas e muitas histórias foram contadas pelo meu pai o que contribuiu para enriquecer o nosso imaginário infantil, não só no Ceará, como já em Brasília também. Aqui ele contou histórias vividas e ouvidas no tempo de construção da cidade e principalmente do Presidente Juscelino, que ele teve oportunidade de conhecer. E sempre dizia a frase habitual : “esse é que é o tipo”, logo depois de contar as aventuras verdadeiras e/ou imaginárias dos pioneiros e candangos da época.

Passamos então, a viver outra fase de histórias, quando demonstrava admiração e respeito pela figura do fundador da cidade que ele passou a amar. Eram histórias de coragem e heroísmo e dessa vez, ele também era personagem.

Por: Lígia Lima

5 comentários:

  1. "...Os olhos de cada um de nós brilhavam que pareciam duas “bilas”..."
    Tia, impossível não imaginar seus olhos - característica tão marcante no seu rosto - brilhando com as histórias do vovô.
    Fantástico o relato, amei!
    Beijos.

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  2. Que texto encantador, Tia Lígia!
    Parabéns por sua iniciativa de buscar um editor para o livro. Tenho fé de que dará muito certo!

    Um beijão da sobrinha que gostaria de presenciar o dia em que a senhora for contar a história do pavão misterioso para seus futuros netos.

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  3. Marina, deixa eu presenciar este momento também? Adoro as histórias que o vovô um dia contou para os filhos e que por eles foram contadas a nós. Meus irmãos e eu nos divertíamos principalmente com a história do menino que virou papa quando os sinos finalmente tocaram... Muito boas as histórias!

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  4. Eu topo esse encontro com nossa contadora de histórias preferida e prometo ouvir atentamente cada um desses contos maravilhosos. Só não garanto controlar minha imaginação, porque já sei que ela estará bem longe, como já esteve tantas outras vezes mediante a narrativas supercriativas da tia Lígia.

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  5. Mãe,

    Ao ler este texto, a senhora conseguiu relatar muito bem a forma que também me contou do Pavão Misterioso. Foi encantador!

    Créditos eternos ao vovôzinho!

    Amo vcs!

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