Uma das melhores lembranças que posso recordar desde a minha infância era correr pelo corredor do segundo andar do bloco C, sentido apartamento 210 - apartamento 206.
E foi assim mesmo que tudo começou: corri pelo corredor, desacelerei ao passar pelos elevadores e cheguei diante da porta da casa da vovó. Abri a porta (eu sabia que quase sempre estava destrancada), empurrei-a devagar e vi a sala muito arrumada e iluminada pelo sol da tarde. Entrei calada e sentei-me no sofá.
Percebi que meu pai estava lá na copa, em pé, diante da mesa de jantar. À primeira vista ele não me viu. Estava com um olhar misteriosamente encantador para alguém. Meu pai o abraçava apertado e o encarava penetrantemente.
- Pai, quem o senhor está abraçando?,Perguntei.
- O seu Lima.
- Meu coração acelerou. Perguntei novamente: - Quem???
- Ora, minha filha, o papai.
Emudeci. Mil coisas se passaram pela minha cabeça. Como podia eu não o enxergar? Permaneci alguns instantes ali, quietinhos no sofá, esforçando para visualizar o que os meus olhos não conseguiam ver, infelizmente... Uma bom pensamento me ocorreu. Levantei-me imediatamente do sofá com a intenção de localizar a vovó. Pensei: -Ela tem que vê-lo! A vovó não vai acreditar que o vovô está aqui!
Andei pelo corredor, o sol da tarde iluminava todo o quarto da tia Edith e um pouco do corredor. Cheguei ao segundo quarto e vi a vovó, estática, olhando para a janela. A luz do sol invadia todo o quarto, a luminosidade era muito intensa naquele ambiente. Era tão intensa que eu quase não conseguia permanecer com os olhos abertos. Chamei-a baixinho, mas não fui atendida. Tentei novamente: - Vovó, vovó! Fiquei em silêncio novamente e percebi que a vovó conversava com alguém. Ousei perguntar: - A senhora está conversando com quem? Ela me olhou, sorriu carinhosamente e respondeu: - Converso com Nossa Senhora, você não está vendo? Arritmia cardíaca, esse foi meu auto-diagnóstico. Pensei mil coisas:- Nossa Senhora estava aqui? Como pode? Foi ela quem trouxe meu avô?
Só me lembro que depois disso eu acordei. Emoção demais. Acho que fiquei uns 10 minutos na cama pensando, pensando. Revivi aquela cena repetidas vezes na minha mente.
Resolvi me levantar e procurar alguém para contar este sonho tão maravilhoso. Pensei logo que meu pai poderia ser um bom ouvinte, afinal, desde a minha infância, quando eu acordava, eu comentava: - Pai, sabe o que eu sonhei? E ele respondia sorrindo e brincando: - Sonhou? Não é possível! Ô menina que sonha!
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
Inesquecível personalidade
Escrever sobre o vovô Lima é fazer uma viagem ao interior de mim mesma, é dar um mergulho na alma. Durante os dias destas últimas semanas me propus uma atividade deliciosa... Visitei por intermédio da memória fatos, fotos e feitos do nosso patriarca.
Várias imagens tomaram forma em minha mente e me levaram a construir filmes biográficos, aventuras, romances e animações de cordel. Recordei-me de marcas registradas e da evolução de suas peripécias com o tempo. As lembranças mais antigas são de um vovô forte e cheiroso, de cabelo sempre bem branquinho e penteado, andando com seu robe sobreposto à roupa de algodão confortável, chinelos por cima da meia e toalhas no pescoço em direção à sala de jantar, onde esperava ser servido pela vovó. Quando se aproximava para cumprimentar os netos, roçava fortemente sua barba pinicante contra as sorridentes bochechas infantis. Num sobressalto as bochechas se retraíam e o vovô parecia se divertir muito com a nossa reação. Ninguém ficava incólume à sua provocação.
Lembro-me também do gosto que fazia em deslocar-se por algumas quadras para comprar seu rotineiro pão português. Gostava dele quentinho, caracteristicamente redondo e fofo, em meio a lanches fartos postos ao final da tarde, com a frequente presença de uma tradicional rapadura. Apreciava imensamente a iguaria nordestina. Quando a fatiava em pedaços heterogêneos e irregulares, os oferecia a cada um ao seu redor. E ai daquele que não aceitasse. Tinha forte poder de persuasão: “coma, minha filha, coma. Ara, deixe de besteira.” Mas quando a situação se invertia e lhe oferecíamos alguma gostosura, invariavelmente agradecia e dizia não. Depois disso analisava o quitute, ponderava e dizia “pois me dê um pedaço”, sem medo de voltar atrás e ser feliz. Era gente simples à mesa. Fazia sons e estalidos com a boca, que nem a mais poderosa onomatopéia poderia traduzir à linguagem escrita. Enquanto mastigava, entretinha-se com bate-papos propostos dia após dia pela Leda Nagle em seu programa Sem Censura da TV Brasil.
Em meio a sua rotina, sempre retirava um tempo para visitar-nos. Anunciava sua presença com generosas badaladas à campainha. Eram várias, em sequência apressadamente cadenciada. Vinha, conversava, fazia orações, reclamava da noite mal dormida, convidava para visitas ao Condomínio Verde. Tinha um sorriso lindo, um olhar vibrante, e um jeito de falar deliciosamente cearense. Foi simplesmente uma grande personalidade coroada pelas coisas simples da vida.
Por: Marina Lima
15/01/2010
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Sol da manhã
Entre um cochilo e outro. Tenho a impressão que foi assim que guardei a primeira memória da minha vida: a do colo do vovô. Vejo seus braços fortes me segurando de maneira firme e ah..., minha luta inútil para fugir daqueles seus carinhos viris! Era ele, com aqueles óculos grossos, os olhos fechados e o sorriso contido, esfregando sua barba grisalha e grossa, ainda por fazer, na minha bochecha lisa e gorducha. “Ai ai ai, isso pinica, vovô!”
Nas fitas de vídeo cassete que eu vi mais tarde na casa do tio Valner e da tia Lígia, não só tive a oportunidade de observar outros primos passando pelas mesmas intempéries, como também assisti toda a energia das festas de aniversário dos anos 80 e 90. Cara, quanta alegria...! Lembro-me bem do zelo dos nossos pais ao arrumarem os salões de festa com decorações fantásticas, para depois organizarem brincadeiras e gincanas divertidíssimas. Era tanta coisa pra fazer que mal dava tempo de desfrutar da fartura de comida e bebida da festa. A animação e a integração por si só merecem um espaço à parte. Fica aqui a lembrança de um tempo em que crianças e adultos se divertiam juntos na pista de dança ao som de Xuxa, Balão Mágico, Trem da Alegria e companhia limitada.
O Bloco C da 312 Norte, o prédio do Seu Lima e da Dona Francisca, foi o palco de muitos encontros bacanas da família. Foi também um dos pontos fortes da minha infância, por onde traçava percursos de bicicleta entre seu estacionamento, as mangueiras, os ipês e os pés de jaca, até chegar ao gramado vizinho, da 311 Norte, antes desabitada, onde uma trilha cheia de aventuras levava ao terreno baldio da atual capela da Consolata. Era um barato! Talvez pela mesma inspiração, um candidato a prefeito da quadra reuniu um mutirão de adolescentes da redondeza e em apenas um final de semana transformou minha trilha natural em uma grande pista artificial de mountain bike. A façanha até foi filmada e mostrada na TV local. Imaginem a estranheza que a medida causou aos olhos do Seu Lima...
Certa vez, caminhávamos lentamente pela calçada entre nossos prédios, quando de repente o vovô se virou com um movimento brusco, apontou em direção à pista das bicicletas com o olhar distante, deu seu característico fungado e exclamou: “ô sirvicinho mal feito!”. Reclamava com razão, pois um bocado de poeira levantava dali todos os dias, atacando os alérgicos de plantão. Ironicamente, não demorou muito tempo até o circuito de terra virar um campinho de futebol.
De volta ao Bloco C, faz pouco tempo que avistei de longe Dona Francisca lendo um jornalzinho num banco na frente do prédio, com o intuito de usufruir do sol da manhã. Cena que me pegou de jeito, tal era a semelhança entre ela e o vovô naquele instante. Não era idêntica só no olhar, mas também no jeito singelo de aproveitar o dia de forma serena, sem pressa, de corpo e alma.
De repente imaginei um retrato dos dois ali, de mãos dadas, sentados naqueles banquinhos de praia bem coloridos. A impressão que tive é que seus corpos já não se distinguiam, estavam misturados, formando uma pessoa só. Não conseguia vê-los nitidamente, de tão forte o clarão do sol, e foi em um desses momentos de pura imaginação que a história dos dois se perpetuou em mim. O retrato então virou poesia, foi publicado e postado na memória da família Lima com beleza singular, por gerações e gerações.
Por: Eduardo Queiroz
15/01/2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Manduca
Pai
No dia vinte e três de dezembro de 2004
Véspera de Natal
O tempo amanheceu choroso
A chuva fina e o vento frio nos trouxeram a notícia
Que o senhor havia partido
Busquei do nada aquela conhecida pergunta
Que todos fazem do seu próprio jeito
Sobre a nossa existência
E fiquei feliz em enxergar a sua imagem
Fortaleza de gostar e possuir uma verdadeira fé na vida
Fé sem fronteiras e enfeites
Fé de quem soube desbravar os caminhos com alegria e otimismo
Fé de quem plantou no planalto central uma árvore exuberante
Chamada família
E que colheu com tranquilidade e com prazer os seus frutos
Pai
Hoje o mundo vai ouvir um chorinho
Aquela música singela e feliz
Daquelas que o senhor ouvia e pedia bis
Porque o senhor nos deixou um importante ensinamento
Que irá perpetuar em gerações
A de valorizar o simples para ser universal
O simples encontro
O simples gesto de carinho
E a simples honestidade de ser gente de verdade
Pai
O seu sorriso desmoronou muralhas
E o seu coração
Ah! O seu coração!
Doce e pulsante, menino traquino
Nos deixou um lindo recado
- Descobrir a beleza da vida!
Adeus!........
Por: Newton Lima
23/12/2004
No dia vinte e três de dezembro de 2004
Véspera de Natal
O tempo amanheceu choroso
A chuva fina e o vento frio nos trouxeram a notícia
Que o senhor havia partido
Busquei do nada aquela conhecida pergunta
Que todos fazem do seu próprio jeito
Sobre a nossa existência
E fiquei feliz em enxergar a sua imagem
Fortaleza de gostar e possuir uma verdadeira fé na vida
Fé sem fronteiras e enfeites
Fé de quem soube desbravar os caminhos com alegria e otimismo
Fé de quem plantou no planalto central uma árvore exuberante
Chamada família
E que colheu com tranquilidade e com prazer os seus frutos
Pai
Hoje o mundo vai ouvir um chorinho
Aquela música singela e feliz
Daquelas que o senhor ouvia e pedia bis
Porque o senhor nos deixou um importante ensinamento
Que irá perpetuar em gerações
A de valorizar o simples para ser universal
O simples encontro
O simples gesto de carinho
E a simples honestidade de ser gente de verdade
Pai
O seu sorriso desmoronou muralhas
E o seu coração
Ah! O seu coração!
Doce e pulsante, menino traquino
Nos deixou um lindo recado
- Descobrir a beleza da vida!
Adeus!........
Por: Newton Lima
23/12/2004
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