terça-feira, 6 de abril de 2010

Seus secretários

De vez em quando, eu e Francisco tínhamos consulta médica (a do Newtinho era mais diferenciada, ele era bebê). Consulta que virava uma aventura, e, não raro, era o papai quem nos levava. Não querendo se atrasar para o trabalho, fazia ginástica para bater o ponto na agência, onde pegava as correspondências para entrega. “Vamos, vamos!”, andava pela casa tirando seu pentinho do bolso e passando em seus cabelos negros e sedosos, um golinho de café e um “ahh”.

Enquanto a mamãe nos orientava sobre a roupa, etc., eu e o Francisco ficávamos felizes porque íamos andar de ônibus, “uau”! Naquela década de 70, era sim uma aventura. Primeiro porque o ônibus custava a chegar, então, na espera, a gente já começava a viagem. Segundo porque próximo à parada de ônibus havia mata, coisa bonita! Terceiro que a paisagem do trajeto, era , digamos, selvagem, para o que é hoje.

Na parada, segurávamos na mão do papai e pulávamos ao mesmo tempo, saltávamos do banco para o chão e jogávamos pedrinhas pra ver quem mandava mais longe. De repente a gente dizia: “Pai, tô ouvindo um barulho de... ônibus!”. Ah, quando ele surgia... Cada aproximada era um flash! Então eis que ele parava e o papai, já nos pegando pela mão, dizia ao motorista: “Bom dia chefe, trouxe aqui os meus secretários!”. Eu, subindo as escadas meio em diagonal, pois ele me segurava por um braço já de olho no Francisco, que passava voando por debaixo da roleta (sim, nessas horas de passeio o Francisco ficava super ágil!). O garoto queria ver tudo dentro do transporte, ia de um lado para o outro, abria e fechava janelas e puxava a cordinha para o ônibus parar. O papai, no bate-papo, claro, geralmente com o motorista ou cobrador, e eu naquele banco mais alto, olhando a paisagem, o céu de Brasília, a imensidão, um... “plano alto”.

Acho que herdei do papai esse olhar, de buscar nesse céu marcante e único do Planalto Central, um olhar de possibilidades infinitas. Minha lembrança mais forte dele é a de aproximar-se das pessoas com um coração de criança, aquele que se abre para sentir e para dizer o que sente. E assim o fazia, sabendo que a chave das possibilidades era ser como criança, experimentar conversar, não só por palavras, mas de muitos outros jeitos.

Lembro-me que eu criança, na 3ª ou 4ª série, saí com a turma aqui da escolinha da 312 para uma atividade no gramado e, de repente, quem me aparece? Sim, o papai, com a bolsa dos correios a tiracolo, descendo rapidamente a ladeirinha do bloco K. Que felicidade quando nos olhamos! Eu queria colo, mas era tão tímida que não me atrevi a correr ao seu encontro. Certamente ele ia jogar a bolsa no chão, me levantar e rodar comigo, como sempre fazia. Mas fiquei sentadinha seguindo-o até perdê-lo de vista. Como ele era lindo, estatura alta, corpo de atleta... Mas é claro, trabalhava caminhando, por horas! Atributos que foram herdados também dos tempos de agricultor nas terras de meu avô. Papai tinha uma elegância inata, sim, natural, dele. E o sorriso, os olhos, o olhar? Ah, mais além, olhos de fé.

3 comentários:

  1. Que beleza de texto, tia Edith!

    Parabéns!

    Fico imaginando como era Brasília naquela época, principalmente aos olhos das crianças...

    Vovô gostaria muito de ler com detalhes tão reais suas palavras aqui escritas!

    Bom demais!

    Grande beijo!

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  2. Parabéns, tia Edith!

    Texto lindíssimo, você tem uma sensibilidade incrível...!

    Um grande beijo e um saudoso abraço,

    Léo e Mari

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  3. Esse texto é maravilhoso e revela a aptidão da autora para as letras. Parabéns querida, é sempre bom lembrar das pedrinhas arremessadas enquanto o ônibus não surgia no horizonte da dáblio três... Maria Edith com o seu vestidinho fazendo graça!

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