terça-feira, 23 de março de 2010

A regra do bem-viver

Você conhece a regra do bem-viver? Perguntava o meu pai. Eu respondia: “não, conheço não, como é?” Ele entrava com outra história, disfarçava e não respondia. Falava de uma professora muito rigorosa que lhe havia ensinado o “beabá” e que usava de uma palmatória para que aprendesse. Depois emendava a conversa com uma série de versos que essa professora usava para o ensino das primeiras letras: “Mel com pão, pão com mel (...) se não quer o pão, quer o mel?” Uma coisa mais ou menos assim, também nem me lembro tanto, pois essas conversas se davam quando eu tinha uns 12 ou 13 anos e, enquanto ele me servia, pela manhã, antes de ir ao colégio, um prato com pedaços de pão, molhados ao leite e com muito açúcar. Muito bom! Também ele preparava uma farofa de ovos com pedaços de banana que era uma delícia! Eu ouvia aquelas histórias com prazer, enquanto saboreava rapidamente o café, além de prestar viva atenção ao relógio. Hora de ir, só passava por ele se o uniforme do colégio estivesse impecável. “Seja feliz!”, dizia ele, à porta. Escada ou elevador? Enquanto isso, respondia: “Tá bom pai, tchau”.

Eu ia para escola e já, lá na frente, olhava para trás, para o bloco, pois sabia e tinha a certeza que o meu pai me observava da janela do apartamento. Acenávamos um para o outro. Agora eu podia chutar os cascalhos e cristais, sobras de obras, respirar a umidade da aurora e apreciar o revoar dos passarinhos ao me aproximar das moitas de capim-gordura, muito comuns à época. Enquanto caminhava, a mim se juntavam outros colegas da escola, e eu pensava naquela história da “regra do bem-viver”: seria mesmo possível uma regra para o bem-viver? Seria como mandamentos? Seriam ensinamentos? Por que o meu pai não dizia sobre qual e como seria essa tal regra? Égua... Quantas indagações cabem na vida? Há um manual para o animal viver? Quando eu chegava à escola pensava: “a regra do bem-viver deve ser bem diferente de tudo isso...” E ficava “na minha”, como a publicar um ato secreto. Credo.

Essa tal regra que meu pai dizia e não dizia me aproximou dos mistérios e me distanciou dos ministérios! Tem me valido uma curiosidade que me custa caro, porém a sensação é de ir ao encontro de um raríssimo tesouro. Na verdade, é um ponto de construção e desconstrução, ou de mutação, assim como foram os inúmeros paradigmas que sustentaram a sociedade há um tempo. Descobri que o meu pai também brincava com essa história, pois ele não podia dizer para mim o que era porque também não acreditava que fosse somente aquilo que aprendera. Havia muito mais do que aquele aprender traumático que se resvalou em sua memória. E ele resolveu reinventar e encarnar a regra do bem viver... Com um coração de criança, o velho sorriso estampado no rosto, as veias estufadas pelo trabalho e os olhos miúdos de um sonhador, pôs-se a ensinar como construir um mundo melhor, com a simplicidade das coisas, alegria, amor e prazer. Servir e respeitar o outro. Descansar bem do dia. Acordar com confiança. Ser “positivo”, como diria. De quebra, pegava o violão e cantarolava:

“Eu fui às touradas em Madri

Parará tim bum bum bum

Parará tim bum bum bum

(...)

Eu conheci uma espanhola

Natural da Catalunha...”

Por: Francisco de Assis Oliveira Lima

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Seu Lima que conheci - recordações

A pedido de seus filhos, principalmente, na pessoa de meu querido amigo e ilustre jornalista, José Romildo Oliveira Lima, passo a relatar alguns fatos vividos e presenciados por nós, quando Seu Lima esteve no Rio de Janeiro, terra que ele amava com tanto carinho, pois aqui estivera, quando ainda jovem, e trabalhou na construção do Túnel Santa Bárbara no bairro do Catumbi. Por diversas vezes quando passávamos por lá ele me relatava as dificuldades e o trabalho penoso que ali exercera. Tempos difíceis aqueles, mesmo assim ele recordava com tanto carinho.

Em janeiro de 1991, Seu Lima e Fransquinha vieram passar uns dias conosco em Jaconé (RJ). No domingo fomos visitar sua irmã Doninha, que morava em um bairro de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, chamado Tribobó. Nesta época eu possuía uma Brasília branca e, de manhã cedinho, depois do café, pegamos a estrada. Chegamos por volta das dez horas da manhã. Qual foi sua alegria ao ver a irmã, o cunhado, Sr. Gonçalo Tomás, e todos os sobrinhos que moravam por perto... Foi uma festa só, uma alegria imensa tomou conta dele, Seu Lima, era de simplicidade ímpar, uma característica que o acompanhava em sua vida. Conversou muito, relembrou os tempos de sua infância no Riacho da Lapa e todas as histórias ali vividas, eu fiquei como ouvinte, pois não conhecia este lado, fiquei saboreando estes “causos” transcorridos na sua juventude. Houve um lanche farto com toda a família, confraternização geral, foi uma verdadeira festa.

Quando já estávamos para retornar, Seu Lima me disse: “Olha aqui este galho desta planta tão bonita”, havia podado e alguns galhos jaziam no chão, perguntou se pegava de galho, os seus familiares disseram que sim, então me perguntou: “Posso levar para plantar no seu terreno em Jaconé?”. De pronto concordei. Como o galho era grande e não cabia dentro do carro, ele o levou agarrado pela mão junto à porta do carro pelo lado de fora. Durante a viagem dizia: “Assim que eu chegar, vou plantar e regar para que ela cresça”. E assim o fez, escolheu ótimo lugar junto ao campanário de Nossa Senhora da Conceição que temos em Jaconé, como homenagem à padroeira de Ipueiras (CE), cidade onde nascemos. A planta pegou e ainda hoje está lá, enfeitando e embelezando o jardim. Já foi podada várias vezes e continua uma de uma beleza incomparável. Vejam a foto:


“Causo” I
Nesta mesma viagem que veio nos visitar em Jaconé (RJ), todas as manhãs íamos caminhar cedinho na área da praia, adorava fazer isto logo cedinho, e íamos contemplando a exuberante natureza de Jaconé com suas montanhas verdes e mar verde claro, cor de esmeralda. Era uma paisagem deslumbrante, o sol ainda nascendo com seus raios dourados, o que deixava a natureza ainda mais bela. Seu Lima parecia uma criança diante de tamanha beleza, e andava como uma criança peralta não observando aonde pisava e distraído caminhava bem perto da arrebentação das ondas. Então, mais que de repente, veio-lhe ao encontro uma onda que o derrubou. Caiu dentro d’água molhando toda a roupa e sujando de areia sua bermuda. Quando chegou a casa, Fransquinha perguntou-lhe com grande amabilidade e preocupação: “Lima, o que houve? Está todo sujo de areia e molhado!”. Ele, com aquele jeito maroto, disse: “Uma onda me pegou e caí”, ria muito como uma criança travessa.

“Causo” II
Todas as noites rezávamos o terço no alpendre da casa. Margarida colocava uma imagem de Nossa Senhora e assim o terço era rezado. O Seu Lima tinha uma maneira peculiar e particular de responder o terço, pois a Fransquinha era quem “tirava” o terço. Ele, sempre com uma voz forte e pousada, dizia: “SANTA MARIA...” começando primeiro antes dos demais e dava ênfase à expressão “SANTA MARIA”. As meninas, que naquela época eram pequenas, riam muito da maneira como ele rezava. Elas riam não por deboche, mas por sua maneira sui generis de rezar. Depois do terço todos diziam “SANTA MARIA...” tentando imitar aquele tom forte e característico que só ele conseguia.

Tenho convicção (plagiando o Lula), que quando o Seu Lima chegou lá no céu, bateu na porta e São Pedro veio recebê-lo e dizendo: “Entre meu filho, tome posse de sua morada”. Então ele ficou assustado com a mansão mencionada por Pedro. Era enorme e de uma beleza que parecia o Taj Mahal e, com aquela simplicidade e humildade que lhe era característica, disse para Pedro: “É minha mesmo? Tem certeza?”. E Pedro, encorajando-o, disse-lhe: “É sim”. Então, dirigiu-se para lá e tomou posse. A minha certeza está baseado na palavra do Senhor Jesus, que nos revelou no Evangelho de Mateus 25,34 – “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino (casa) que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me deste de comer(...)” Aqui faço minha reflexão, o Seu Lima, quando aqui vivia, fez muitas e boas obras, relembremos: era vicentino - todos os domingos saia com o seu grupo para levar alimentos, roupas e outras oferendas aos pobres da periferia de Brasília. A todos cumprimentava com um sorriso nos lábios, os aconselhava e orava com eles.

Quando encontrava um amigo na rua ou quando fazia sua caminhada matinal, dava uma atenção especial a todos, conversava, ria e sempre tinha uma palavra amiga para quem quer que fosse. Isto é evangelizar, isto é transmitir o amor de Deus ao próximo. Tudo isto era o tijolinho que ela estava mandando diariamente para o céu para construção de sua morada eterna. Tanto é que, quando chegou, encontrou a sua morada ornada e pronta pelo Pai.

Estas são minhas recordações deste simples e humilde servo do Senhor, que fez de sua vida aqui na terra um exemplo de um ser humano, que ama seu próximo independentemente de sua cor, raça ou credo e amava com a simplicidade dos santos. É exemplo para todos, principalmente para nossas famílias, que têm um orgulho muito grande de ter convivido com ele. O que mais admirava no Seu Lima era aquela simplicidade, aquela pureza de uma criança que existia no seu ser.

Por: Raimundo Djacir Melo

sexta-feira, 5 de março de 2010

Escuta!

"Escuta!" Era assim que o papai dizia muitas vezes ao caminharmos pelas trilhas na Água Mineral..."Tá ouvindo? Aquele ali é o Quero-quero, olhe, um Anum!", às vezes eu arriscava “Pai, esse canto é do sabiá?” e ele já parando, braços pra trás, olhava bem pro alto das árvores, numa tentativa de, com seu assobio, travar um “diálogo”com o passarinho. Seguiamos pela trilha com os sentidos aguçados, queríamos sentir mais aquela maravilha; de vez em quando ele puxava o ar com mais vigor e o soltava mais devagar. Será que lembrando de suas caminhadas no Riacho da Lapa e Pé do Morro, ou mesmo em Brasília como carteiro? Às vezes era pelo silêncio que percebíamos melhor tudo. De repente, o papai se abaixava e dizia: “olhe aqui o capim gordura”, mais lá na frente: “Ó Dith, o tamanho do cupinzeiro!”, aí, de repente vinha um cheiro avassalador, e dizíamos quase ao mesmo tempo: “humm, que bom!!” e já olhando em volta, Seu Lima decodificava: “Imburana de cheiro”. Pra aquecer um pouco a conversa, eu provocava, “vamos Manoel, quer morar aqui, é?” É que eu estava muito afim de pegar um solzinho que brilhava “lá fora” , sim, explicando que os raios solares não adentram àquela mata, não inteiramente.

O olhar do Seu Lima. Um olhar de ternura que se nutria de tudo ao redor, acho que pouco ou nada lhe escapava; e suspirava cada vez mais calmamente como que consciente do sopro divino que nos fez e nos refaz a cada instante.

O seu jeito de ser numa frase: olhar de frente todas as experiências, sejam maravilhosas ou nem tanto, mas era só assim que ele sabia viver.

Por: Maria Edith Oliveira Lima