Vovozinho. Ou, para mim (e, talvez,para mais alguém) “cabecinha de algodão”. Tão macia, tão cheirosa! Que só de relembrar, o coração aperta. É como se ele estivesse à minha frente e eu a passar e deslizar as mãos sobre sua cabecinha de algodão.
Vovozinho, que sempre chegava à minha casa no tocar rápido de campainha, e nós (eu e o Júnior) falávamos: “aposto que é o vovô!”. E corríamos para abrir a porta e já dizíamos: “Vovô, benção! Tudo bem?” e ele respondia: “Deus te abençoe!”. Mas parecia se sentir envergonhado e não respondia a todas as perguntas, já ia dizendo: “Cadê o Seu Miranda e a Lilinha?” Lilinha era o modo a como se referia à minha mãe, e ela, da mesma forma, assim como outros membros da família, também se refere a mim.
De pronto, já oferecíamos o jornal, antes que se invocasse de sair andando novamente. Falando nisso, como era culto! Como estava interado dos assuntos. Criticava, elogiava, perguntava, em especial, assuntos políticos e econômicos. Eu ficava realmente impressionada.
Quando ele queria ir embora, mas não queria pedir para alguém o levar, já dizia: “então eu já vou”. Um coro respondia instantaneamente: “Não vovô!”; “Não papai, espera! Eu o levo”. “Não vovô, meu pai já vai trabalhar e dá uma carona ao senhor”. Pronto, ficava todo satisfeito. E já ia descendo na frente para analisar o jardim, conversar com os porteiros e ficar ao ar livre. E como sempre, se despedia com a famosa frase: “Seje bem filizzz, minha filha!”. Eu sempre levei tão a sério esta frase, que tomava posse de seus dizeres afirmando fortemente: “Amém, vovô!”.
Certo tempo, quando as orações cominadas com almoço (ou lanche) foram implantadas em nossa família todos os Domingos, era uma alegria para ele e para a vovó. Não sei qual o sentimento exato de cada um, mas estou certa de que pelo menos, a alegria de nos reunirmos prevalecia, e a vontade e o desejo de oração foi tornando-se mais consistente, mais profundo, mesmo após a “partida” do nosso patriarca, como de fato, está até hoje.
Triste? Para nós humanos, demais. Dói muito pensar que não o temos de carne e osso ao nosso convívio. Alegres? Sim, quando estamos investidos do sentimento de cristãos, pois, acreditamos que ele já cumpriu sua missão neste mundo e está junto de Deus, aguardando a hora de cada um para reencontrá-lo. Inclusive, ele foi passar o Natal ao lado do aniversariante (23/12/04). Isto que é privilégio de um homem de fé, puro e inesquecível. Realmente foi um exemplo de cristão.
Nunca vou me esquecer de sua expressão durante as orações. Quando estávamos reunidos em momentos de reflexão e leitura, todos compenetrados; uns de cabeças baixas e olhos fechados; outros olhando para o narrador; outros olhando para cima e eu olhando para cada um, assim como hoje tenho este costume. O engraçado é que sempre que eu passava os olhos ao chegar ao vovô, ele me olhava, arregalava um pouco os olhos e como que se afirmasse um sim, balançava a cabecinha e dava um sorriso encantador. Sempre! E eu retribuía e meu coração ardia. Acho que era uma expressão de amor instantâneo. Era Jesus, na forma de homem, me confortando. =)
Bom, gostaria de compartilhar momentos particulares e de uma visão pessoal minha em relação ao vovô. No fundo, sei que ele está vendo tudo o que estamos fazendo e falando e quero dizer, vovô, que momentos tão simples e do dia-a-dia, ficaram marcados em meu coração, de uma forma muito peculiar. Tenho guardados até hoje seus bilhetinhos e cartões escritos de forma conjunta com a vovó. Sua letrinha tremida e cheia de palavras sinceras e objetivas estão comigo. Amo o senhor! Fique em paz! Amém.
Por: Lílian Miranda Lima
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
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Sua cara o texto, Li. Muita energia positiva e sabedoria. Maravilhoso! Beijão do primo que te admira pacas!
ResponderExcluirÔ Dudu, obrigada! Obrigada mesmo pela força, eu também o admiro demais!
ResponderExcluirBeijooo!!!
Lilinha,
ResponderExcluirIdentifiquei-me demais com o seu texto. Muito emocionante!
Realmente o vovô despertava em nós certos sentimentos que, incrivelmente, foi vivenciado por toda a família.
Quero explicar-me: quem não "brincou de adivinhar quem estava à porta quando a campanhia tocava "n" vezes por minuto? Quem não compartilhou este momento de "objetividade" do vovô que, após o costumeiro "Deus te abençõe, minha filha" já emendeva outra pergunta que, no caso da minha família geralmente era "o Rudiguinho está aí?"
Outra coisa que me chamou a atenção foi adjetivo "cabecinha de algodão"... Ai, ai... lembrei-me da Bebel que o chamava carinhosamente de "vovô maluquinho"....
Belo texto! Vou parar por aqui, pois como não sou muito objetiva, comentarei provavelmente linha por linha.
Beijos!
Lilinha, incrível como seu texto conseguiu traduzir direitinho a essência do vovô! Lindo, lindo! Até a letra trêmula dele... rs! Engraçado que as badaladas frenéticas à campainha são memórias recorrentes da gente, não é mesmo?
ResponderExcluirFiguraça esse nosso vovô de cabeça de algodão! Que legado bacana que ele deixou para a family!
Beijinhos da prima que dá o maior valor para tudo aquilo que você produz (invariavelmente de altíssima qualidade!)!
Hahahaha, nossa, então que bom que praticamente todos nós temos estas lembranças!
ResponderExcluirQue poderia eu escrever após tantos textos belíssimos? Nossa, fiquei "de cara" com os textos de cada um. Cada um expressando de sua visão particular. Interessantíssimo!
Por isto escrevi o que realmente vivi, pois se fosse tentar me igualar a tantas poesias e formas belíssimas de escrever, não daria!
Parabéns a todos e obrigada pela força lindonas e lindões!
Admiro-os demais!
Grande beijo!
Primona, que texto fantástico!
ResponderExcluirVocê lembrou cada coisa bacana do vovô que realmente não poderiam passar despercebidas.
Hahaha...a campanhia era a marca registrada do Seu Lima.... :)
Um beijo enorme, parabéns pelas lindas palavras!
Léo
Cunhadinha linda!
ResponderExcluirObrigada por compatilhar momentos tão íntimos e comoventes, que nos fazem lembrar o valor das coisas simples e importantes da vida!
Te adoro!!
Dalila