Como neto e fã incondicional do Seu Lima, é com imenso prazer que venho compartilhar com todos algumas peripécias que vivi ao lado desse grande homem: "o vovô Lima".
Quando morávamos eu e minha família em Florianópolis, Santa Catarina, no bairro Trindade, vovô e vovó nos presentearam com uma temporada em nossa casa. Vovô sempre cheio de disposição, alegria e entusiasmo para qualquer programa e diversão. Jeito único de ser. Quem conheceu lembra-se bem de todos seus trejeitos e manias incomparavelmente únicas e engraçadas...
Numa manhã, como de costume, vovô e vovó acordaram cedo e rezaram uma oração antes de sair do quarto. Seu filho Valner (meu pai) já estava na cozinha esperando para o café. Vovô saiu do quarto logo depois da oração, se dirigiu à cozinha, aonde estava meu pai e disse:
“Bom dia, Zé Valner! Dormiu bem?”
“Bom dia, papai! Vou preparar nosso café! A água já está fervendo...” Vovô dava aquela famosa fungada.
“Espere rapaz! Sua mãe já está vindo fazer o café!”
Meu pai, Valner, então completou: “Não papai! Já estou fazendo...”
Vovô saiu da cozinha indignado em direção ao quarto à procura de minha vó, que carinhosamente ele chamava de Quinha: “Quinhaaa, Quinhaaa... Ô mulher devagar...”
Chegou ao quarto falando "baixinho", mas todos escutavam o que ele dizia:
“Quinha, vá fazer o café porque o Zé Valner já colocou a água para ferver!”
“Calma, homem! Já estou indo!”
“Vá logo!!! Ô homem do café ruim!!!”
Lá ia vovó fazer o café. E todos riam em casa das palavras que Seu Lima falava para Dona Francisca, até meu próprio pai, pois o "baixinho" dele era tão alto que não tinha como deixar de ouvir!
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Eu, Rodrigo, adorava assistir aos programas do Chapolin Colorado e Chaves, que passavam no SBT todas as tardes. Vovô virou meu maior parceiro. Assistia a todos episódios a meu lado. Até fazia uso do bordão, "isso isso isso". Numa destas tardes, assisitimos um episódio do Chapolin com tema de terror, no qual aparecia um homem com um pano na cabeça e fazia uns barulhos do tipo, "Ûuuuu, ûuuuuu"... Vovô dava a fungadinha dele e dizia: "Vixiii, pois mude, menino, mudeee!!!", levantando a mão e apertando os botões do controle num ato de desespero com a cena da TV. Eu colocava novamente no SBT, porque queria continuar assistindo ao programa. Ele se levantava do sofá, e saía dizendo:
"Araaaaaa!!! Vou pro quarto."
Então eu respondia: "Vovô, fica aí!!!"
Mas não adiantava, ele saia zangado e se dirigia pro quarto. Era muito engraçado! Esse momento até hoje me traz alegria da reação tão temerosa de vovô com os fantasmas do episódio. As "almas", como ele dizia.
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Um dia acordei cedo e fui correr na beira-mar norte, em Floripa. Estava treinando para o futebol. Voltando da corrida, normalmente eu tomava banho no banheiro do corredor, mas quando esse estava ocupado, eu me dirigia ao quarto suíte, onde meus avós dormiam. Neste dia, não esperava que teria alguém dentro do banheiro com a porta encostada, então peguei a toalha e entrei no banheiro. Me deparei com a cena mais hilária da minha vida! Vovô estava sentado no vaso lendo seu jornalzinho. No mesmo instante que entrei no banheiro o susto dele foi tamanho que imediatamente ele se tampou com o jornal e gritou:
"Vixiii! Saia daqui meninooooo!"
"Ai, vovô, desculpa!"
Saí correndo rindo pela casa em direção a vovó: "Vovó eu vi vovô sentado no vaso do banheiro!!!"
Vovó achou engraçado, colocou a mão na boca e começou a rir.
Vovô saiu do banheiro fungando em direção à sala e disse:
"Rodriguinho, vou dizer tudo a seu pai! Ô menino sem educação!"
"Vovô, desculpa! Eu não sabia que senhor estava no banheiro, a porta só estava encostada!"
"Não gosteiii!"
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Quando meus pais casaram, foi lhes dado de presente de casamento um crucifixo para abençoar o novo lar. Este crucifixo está com nossa família desde então. Quando nos mudamos para Florianópolis, vovô encontrou o objeto dividido ao meio e encasquetou que teria que arrumá-lo. Cléderson, marido de minha prima Ana Maria, falou ao meu vô que existia um homem que arrumava crucifixos no morro. Mas não sabia exatamente aonde. Apenas que era no morro. Nisto, Ana Maria disse que se meu avô conseguisse arrumar o crucifixo, ela restauraria sua pintura.
Foi o que bastou para que Vovô tivesse uma idéia. Na manhã seguinte, quando todos nós acordamos, sentimos a falta de vovô, que não se encontrava em nenhum lugar da casa. Todos nós ficamos preocupados, principalmente a vovó, que dizia: "Aonde esse homem foi?!"
Meu pai dividiu todos para saírem em busca do Seu Lima pelo bairro. Leonardo, Juliana e eu, cada qual foi para um lugar distinto, todos em busca de Seu Lima. Voltamos para casa depois de algum tempo e nada de achar o vovô. A preocupação só aumentava, fazendo com que nós avisássemos até ao Cléderson e à Ana, achando que poderíamos encontrá-lo por lá. E nada do vovô. Então, quando ninguém mais esperava, eis que surge na porta de casa o Seu Lima, com uma garrafa de sangue de boi de 5 litros no ombro.
Todos nós perguntamos aonde ele estava esse tempo todo. Vovó indagava a ele: “Homem de Deus, aonde você estava e que garrafa é essa?”
Rindo, ele dava a fungadinha básica, passando a mão na cabeça da Vovó: “eu mandei arrumar o crucifixo lá no morro que o Cléderson me indicou e depois fui ao mercado, ora"
Todos nós ficamos de boca aberta, pois ambos lugares eram longes demais e aquela garrafa pesava muito para ele ter trazido a pé durante todo esse destino. Demos rizadas quando ele, bem disposto, disse: “abra essa garrafa, Zé Valner! Vamos tomar logo este vinho!”
Foi uma aventura engraçada de Seu Lima. E hoje o crucifixo encontra-se em perfeito estado no Magestic, casa de meu pai, graças ao Seu lima!
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Vovô e vovó, em dia de sol, foram levados pelo meu pai para a praia do Campeche, no sul da ilha de Florianópolis. Meu pai, querendo agradar o Seu Lima, ofereceu-lhe uma caipirinha. Vovô adorou a idéia e a bebida! Num outro dia, Cléderson convidou a todos nós para irmos à praia de Daniela, no norte da ilha. Ele comentou com o vovô sobre os benefícios da caipirinha, que, por sua vez, concordou, contando a ele sobre o dia em que bebeu a bendita batida de limão com o meu pai. Já na praia da Daniela, vovô deu sua famosa sumidinha, deixando todos novamente muito preocupados, pois ele não conhecia o local.
Depois de muito procurar por ele, saí em busca de locais fora da praia e imaginei que ele pudesse estar num barzinho do outro lado da rua. Não é que de fato o vovô estava lá? Quando cheguei disse a ele: “Vovô! Todos estão procurando pelo senhor!”
Seu Lima, já um pouco empolgado com a caipirinha, pediu ao rapaz do bar: “pois, me veja mais um rapaz!"
Discordei na hora: “Não, vovô! Vamos embora!”
E ele rindo, dizia: “Araaaa! Já estamos indo, menino!”
Ele tomava aquela caipirinha numa satisfação tão grande que chega estralava os beiços! E assim fomos ao encontro da família. Voltando para casa, no carro do Cléderson; vovô falou tudo tão embaralhado que ninguém entendeu aquele dialeto! Quando chegamos em casa, a vovó, rindo com a mão na boca, perguntava: "O que esse homem está dizendo!?"
Foi a cena mais engraçada da coleção de várias de vovô! É um prazer poder contribuir com esse livro em homenagem a ele! São tantas histórias que fica difícil selecionar as melhores para o livro. Meu avô foi um grande homem, de muitas histórias vividas com dignidade e pureza. Nos alegrou com seu jeito simples e único de ser. Ao relembrar alguns desses momentos, nos deixa saudosos e até emocionados. É fácil sorrir com suas histórias, mas difícil amenizar a saudade. A lembrança mais gostosa é quando ele dizia: “Meu Rodriguinhoooo!”
Amo você vovô! Onde você estiver!
Por: Rodrigo Daldegan Lima
domingo, 7 de fevereiro de 2010
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Nossa, Digão, arrasou!!! Surpreendente narrativa, com histórias inéditas e incríveis!
ResponderExcluirO texto está super bem escrito e é muito gostoso de ler! Bateu aquela saudade do Seu Lima com seu companherão e fiel escudeiro "Rudiguin"... Lembrei também das vezes que vcs dois iam à Água Mineral, com aqueles garrafões amarrados ao cinturão. Cara, impagável!
Beijos pra vc e pra Caris!
Marina
Muito legal, Rodrigão!!
ResponderExcluirValeu demais recordar esses fatos...! haha..
Meu rudiguiiiinnnn...
Forte abraço!
Adorei! Gosto de histórias legais de ler desse jeito e ao mesmo tempo tão significativas! Parabéns, Rô!
ResponderExcluirBeijos!
Rodrigão por si só já escreveu material suficiente para um bom livro. Parabéns pela iniciativa, primão! É sempre bom ler histórias de quem tem o dom de contá-las. Abração!
ResponderExcluirRodrigo
ResponderExcluirGostei muito dos textos. Parabéns! Parabéns!
tia Ceiça