Houve uma época da minha vida em que a casa do vô e da vó era minha casa por certo período do dia. Nós havíamos nos mudado para o Guará, quando eu tinha uns oito anos e ficamos por lá por uns dois anos e mesmo quando a distância entre a minha casa e a escola se tornou bem maior do que dez passos (afinal, antes da mudança eu acordava com o sinal da escola) não deixei de estudar na amada Escola Classe 312 Norte. Eu estudava de tarde e quando a aula acabava, subia dois andares do bloco C e por lá ficava até o Seu Hélder resolver buscar sua filha.
Enquanto eu esperava, a vovó preparava aquele lanche que eu comia muito satisfeita ao lado do vovô, que estava no auge das operações matemáticas. Às vezes, eu me gabava de ter aprendido algo novo no colégio e lançava uns desafios para o Seu Lima, que dependendo do seu humor tentava resolve-los. Todo o dia era assim.
Um dia, o vovô me pediu para comprar o Correio Braziliense na banca daquela velhinha fofa no começo da quadra e lá fui eu, me sentindo importante pela tarefa confiada a mim. Na volta, devolvi o troco, mas o vovô me disse: “Toma minha filha, pode ficar, é seu”. “O vovô deve ter contado o dinheiro errado”, pensei, já que ele tinha me dado uns dez reais para comprar o jornal. Então me vi entre meu vô generoso e aquela pequena fortuna: quantas balinhas, quantas figurinhas, quantas pipocas poderiam ser compradas com aquilo tudo? Eu poderia mergulhar como o Tio Patinhas!
Só que, de alguma forma, não achei certo. Eu não merecia tantas moedas. Pelo menos cinco vezes por semana eu chegava ao apartamento 206 e era recebida com o maior amor do mundo, traduzido em pães com manteiga, um copo de Nescau e contas matemáticas. Era mais do que eu poderia querer. O Tio Patinhas mergulhava em um monte de coisas pequenas e frias. E eu tinha o colo e o abraço enorme e quente dos meus avós. “Não, vovô, obrigada” e ele insistiu, mas acabou cedendo e guardando o dinheiro. Nesse dia, a generosidade do vovô me impressionou e ele passou a ser um daqueles sábios mestres dos filmes que aconselham os guerreiros da nova geração (Sr. Myagi, Mestre Yoda, Mestre dos Magos) pra mim. No entanto, quando recusei os reais me senti tão sábia quanto ele, e tenho certeza que não teria agido dessa forma se não fosse pelo que ele me ensinava todo o dia depois da aula: as coisas simples são as que valem mais e você não precisa de mais do que isso.
Laís Lima
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
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Linda história, Laís! Ótimo texto, muito agradável de ler, parabéns!
ResponderExcluirAinda mais quando o tema principal é o "Seu Lima", e suas inesquecíveis traquinagens! (risos)
Um grande beijo, dos primos que te admiram muito,
Léo e Mari
Nossa que texto maravilhoso... que viagem eu fiz às circunstâncias daquele tempo!! Minha querida Laís, vc realmente experimentou e vivenciou a tão falada e misteriosa "regra do bem-viver", um produto que o seu avô revelava a poucos, assim, sutilmente. Nossa... fiquei encantado com essa história, parabéns! Ah Laísinha só você mesma ... beijos do tio Chico!
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