sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Rastro de Alma

Por Leonardo Daldegan Lima (23/01/2009)

Quarta-feira era o dia mais aguardado da semana, lá pelo ano de 1998. Também pudera, era o dia do sagrado futebol com o pessoal da faculdade, onde a hora do fim do jogo era sempre indeterminada. Todos jogavam à exaustão, muitas vezes entrando pela madrugada.

Como amante do jogo mais popular do país, embora estivesse ansioso pela chegada de mais uma quarta-feira futebolística, estava com o coração partido por um grande motivo: Naquele mês de maio estava recebendo a ilustre visita de meus queridos avós, Seu Lima e Dona Francisca. Como era bom prosear com eles, ouvindo atentamente suas bravas histórias e rindo das engraçadas situações de outrora!

Pois para mim a ida ao futebol naquele dia foi um dilema, já que a participação de todos era sempre esperada, sob pena de não haver dois times completos e, assim, “melar” o jogo.

Dessa forma, então aproximei-me do vovô Lima e perguntei-lhe:

-“Vovô, vou bater uma bolinha com os amigos, mas já volto, tá legal?”.

Sorrindo singelamente, o vovô, como de costume, respondeu:

-“Pois vá, meu filho...pois vá!”

Com a aprovação do vovô e consentimento da vovó, fui jogar meu futebolzinho de quarta*, como um verdadeiro “pinto no lixo”.

Ao chegar no campo, logo bateu um remorso. Pensei:

-“Puxa vida, meus avós vieram de Brasília, passar um tempo conosco, e eu aqui, jogando futebol.”

Logo bateu uma vontade de que a partida terminasse para que eu pudesse voltar a tempo de dar um beijo de boa noite na vovó e no vovô.

Jogo terminado, galera suada e cansada. Tratei de voltar logo para casa, já sabendo que dessa vez o pessoal exagerou: Eram praticamente duas da manhã!

Logicamente, ao chegar em casa, tentei fazer o mínimo de barulho possível, já que meu pai, meus irmãos e meus avós já estavam no “quinto sono”.

Ao entrar no banheiro para tomar um banho, percebi dois fatos: Primeiro, o chuveiro do banheiro do corredor estava queimado. E, Floripa em maio, para quem não conhece, FAZ FRIO! Pensei:

-“Vou tomar banho lá no chuveiro do quarto do vovô e da vovó. Se eu for devagarinho, ninguém vai nem perceber!”

Quando estava abrindo a porta do quarto do vovô e vovó, lembrei-me do outro fato: Estava sem toalha!

As toalhas, por sinal, também ficavam na parte superior do armário, no quarto onde o vovô e a vovó estavam hospedados. Pensei:

-“Agora, o cuidado deve ser redobrado! Além de entrar no quarto para tomar banho, preciso pegar a toalha no armário!”

Adentrei-me no quarto e verifiquei: Vovô e vovó dormindo como anjos, bem tranqüilos. Pensei:

“Ufa, agora é só agilizar!”

Para minha surpresa, ao abrir a porta do armário, o inevitável “ranger” da esquadria rompeu o silêncio daquele ambiente. Peguei a toalha de forma rápida, pendurei-a em minha cabeça e fechei a ruidosa porta. Ai, meu Deus!

Ao olhar para a cama, tomei um grande susto quando vi, em um movimento brusco, um lençol levantando-se com uma pontinha de nariz exposta. Na mesma hora, ouvi:

-“Rudiguin....? É você??”

A maneira como tudo aconteceu foi muito engraçada! Comecei a rir incontrolavelmente e, rindo tanto, não consegui avisar ao lençol – que por sinal era o vovô Lima – que não era o “Rudiguin”. Então, voltou a perguntar:

-“Zé Valdo....? É você??”

Agora a vontade era de cair no chão de tanto rir! E o pior, não conseguia parar de rir e falar para o vovô que era eu, Leonardo!

Para minha maior surpresa, mais uma observação do vovô soou pelo quarto, desta vez, de forma mais “assustada”:

-“Quinha! Quinha! Acho que “ixto” é um rastro de alma! Veja, Quinha!”

Respondeu a vovó:

-“Vá dormir, homem de Deus!”

Com a toalha na cabeça e os músculos da face doendo de tanto rir, saí rapidamente do quarto.

No outro dia, saí cedo de casa para ir à Universidade. Não pude ver o diálogo do vovô com o “Rudiguin” e com meu pai, onde o mesmo dizia não ter gostado de ter ficado assustado com a brincadeira de mau gosto ou de um, ou de outro.

Não entenderam nada, por sinal.

De qualquer forma, duas coisas foram constatadas: Primeiro, banho gelado à noite faz um bem danado! Foi inevitável...

Segundo, ô rastro de alma misterioso!

* A propósito, o futebol era de primeira, mas jogado às quartas!

3 comentários:

  1. Léo, que texto fera!

    A impressão que eu fiquei é que você estava agora ao meu lado contando a história e morrendo de rir, tão boa foi a narração.

    "Será o benedito?"

    Hahaha!

    Abraços, Dudu

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  2. Léo,

    Essa sua narração é daquelas coisas da vida de preço inestimável! Não pude deixar de lembrar dos episódios do Chapolin que o vovô deixou de assistir por conta por aquele barulho sinistro feito pela clássica alma penada do tal programa...
    "Ô bexteira" afirmava ele, com o seu característico "tsc, tsc"...
    kkkkk!
    ô cabra bom, esse seu Lima!

    Um abração apertado!

    Marininha

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  3. Essa história é clássica, uma das mais engraçadas do nosso protagonista! hahahhaha
    Parabéns, irmão. Vc conseguiu descrever exatamente o ocorrido naquele dia.

    Por falar em Chapolin (comentário da Marina), lembrei-me de outra coisa tão infantil quanto ver Chapolin: quem lembra da mania que o vovô aderiu depois de uma ida à Floripa? Ele aprendeu a comer Sucrilhos! Lembram-se?
    Beijos!

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