quarta-feira, 7 de abril de 2010

É Páscoa!

Hoje, Domingo de Páscoa. É tempo de Ressurreição.

Hoje, 04 de Abril. Também é tempo de lembrar seu Lima, pois ele faria 87 anos de vida.

Impossível não fazer uma leve relação de uma data à outra, principalmente pelo apreço que o aniversariante do dia tinha pela Páscoa – data mais importante do calendário Cristão.

Recordo perfeitamente das nossas Páscoas quando a família reunida fazia as orações e o vovô, ao final, pedia licença para “só falar uma coisinha”... todos nós, com muito gosto, ouvíamos seus famosos conselhos e observações das leituras aplicadas ao dia-a-dia.

O vovô é uma pessoa impossível de esquecer. Ele mais parecia um personagem de ficção! Tinha base firme, de princípios inabaláveis, cabeça bem resolvida de pessoa adulta; ao mesmo tempo em que era sincero e espontâneo, sempre agia com inocência e pureza, demonstrando um coração de criança (o que o deixava mais perto de Deus).

Uma de suas características mais fortes era a personalidade totalmente ativa, a impressão era que seu corpo não acompanhava a velocidade de seus pensamentos. Era Vicentino, ia a pé para a casa de cada um dos filhos e para a Água Mineral, reformava todas as coisas no Condomínio Verde, batia perna para todos os cantos, arrumava tudo que estava precisando de reparos, rezava, incentivava, falava, se admirava, aconselhava, agia...

Na Missa de trinta dias de falecimento do vovô lembro-me dos meus amigos impressionados com o carinho e o com o número de pessoas presentes na celebração. Até que um deles, curioso, indagou: “Júnior, seu avô deixou muito dinheiro para a família, para tanta gente assim vir à Missa?” Quando lhe respondi que o vovô não havia deixado nenhuma fortuna material para seus descendentes, ele custou a acreditar...

Fiquei pensando e cheguei à conclusão que seu Manoel não seguia a lógica do mundo. De fato, ele não deixou fortunas materiais. Mas, com certeza, deixou, sim, uma linda herança para sua amada esposa, dona Francisca, e todos seus sucessores: o AMOR! Como pode um homem tão simples, tão singelo, ser tão amado e respeitado por tanta gente sem deixar bens materiais em troca? Isso só prova que seu Lima soube fazer um verdadeiro “servicinho bem feito”!

A vovó, escancaradamente, era seu grande Amor – o seu porquê de continuar vivo. Certa vez, quando morava em Florianópolis, eu estava por receber a visita da vovó. E o vovô me ligou de Brasília, dizendo: “meu Zunin... não vou deixar a Quinha viajar sem mim mais não... ela não consegue viver sem mim, ela precisa de mim!”. Mas todos nós sabíamos que era ele que não aguentava ficar longe dela.

No dia de hoje continuo sentindo o vovô com seu sorriso firme, verdadeiro e amoroso presente no meio de todos nós – sua amada família.


O que me deixa mais perplexo é poder vivenciar um pouco do seu Lima convivendo com a vovó e com cada um de seus filhos. Posso citar rapidamente, dentre tantas características, pelo menos uma do vovô em cada um deles:
- Vovó: o Amor, o respeito e o dom de nos atrair para perto dela.

- José Romildo: o gosto pela leitura;

- José Válner: o senso de humor;

- Lígia: a religiosidade;

- Conceição: o zelo pelos filhos;

- Hélder: o carisma;

- João José: a pureza;

- Edith: a ligação com a natureza;

- Francisco: a perspicácia;

- Newton: a musicalidade.

Como podemos perceber, Manoel Pereira Lima continua vivo! Seus verdadeiros tesouros emanam sua presença naturalmente!

Vamos seguir seus bons exemplos e homenageá-lo com atitudes nobres durante nossas vidas!

A saudade é grande, mas certamente o vovô está comemorando hoje seus 87 anos de nascimento junto com o verdadeiro Protagonista da Páscoa!

Domingo da Ressurreição também é tempo de renascimento dentro de nós mesmos. Podemos permitir que a verdadeira Páscoa aconteça em nossas vidas quando nos renovamos pelo Amor. Essa é a autêntica herança deixada pelo vovô: o Amor! Sendo direcionados continuamente por esse verdadeiro sentimento, seu Lima continuará sempre vivo!

Valeu mesmo, Vovô! Feliz Aniversário e feliz Páscoa para o senhor!

Feliz Páscoa a todos!

Por: João Miranda Lima Júnior

terça-feira, 6 de abril de 2010

Seus secretários

De vez em quando, eu e Francisco tínhamos consulta médica (a do Newtinho era mais diferenciada, ele era bebê). Consulta que virava uma aventura, e, não raro, era o papai quem nos levava. Não querendo se atrasar para o trabalho, fazia ginástica para bater o ponto na agência, onde pegava as correspondências para entrega. “Vamos, vamos!”, andava pela casa tirando seu pentinho do bolso e passando em seus cabelos negros e sedosos, um golinho de café e um “ahh”.

Enquanto a mamãe nos orientava sobre a roupa, etc., eu e o Francisco ficávamos felizes porque íamos andar de ônibus, “uau”! Naquela década de 70, era sim uma aventura. Primeiro porque o ônibus custava a chegar, então, na espera, a gente já começava a viagem. Segundo porque próximo à parada de ônibus havia mata, coisa bonita! Terceiro que a paisagem do trajeto, era , digamos, selvagem, para o que é hoje.

Na parada, segurávamos na mão do papai e pulávamos ao mesmo tempo, saltávamos do banco para o chão e jogávamos pedrinhas pra ver quem mandava mais longe. De repente a gente dizia: “Pai, tô ouvindo um barulho de... ônibus!”. Ah, quando ele surgia... Cada aproximada era um flash! Então eis que ele parava e o papai, já nos pegando pela mão, dizia ao motorista: “Bom dia chefe, trouxe aqui os meus secretários!”. Eu, subindo as escadas meio em diagonal, pois ele me segurava por um braço já de olho no Francisco, que passava voando por debaixo da roleta (sim, nessas horas de passeio o Francisco ficava super ágil!). O garoto queria ver tudo dentro do transporte, ia de um lado para o outro, abria e fechava janelas e puxava a cordinha para o ônibus parar. O papai, no bate-papo, claro, geralmente com o motorista ou cobrador, e eu naquele banco mais alto, olhando a paisagem, o céu de Brasília, a imensidão, um... “plano alto”.

Acho que herdei do papai esse olhar, de buscar nesse céu marcante e único do Planalto Central, um olhar de possibilidades infinitas. Minha lembrança mais forte dele é a de aproximar-se das pessoas com um coração de criança, aquele que se abre para sentir e para dizer o que sente. E assim o fazia, sabendo que a chave das possibilidades era ser como criança, experimentar conversar, não só por palavras, mas de muitos outros jeitos.

Lembro-me que eu criança, na 3ª ou 4ª série, saí com a turma aqui da escolinha da 312 para uma atividade no gramado e, de repente, quem me aparece? Sim, o papai, com a bolsa dos correios a tiracolo, descendo rapidamente a ladeirinha do bloco K. Que felicidade quando nos olhamos! Eu queria colo, mas era tão tímida que não me atrevi a correr ao seu encontro. Certamente ele ia jogar a bolsa no chão, me levantar e rodar comigo, como sempre fazia. Mas fiquei sentadinha seguindo-o até perdê-lo de vista. Como ele era lindo, estatura alta, corpo de atleta... Mas é claro, trabalhava caminhando, por horas! Atributos que foram herdados também dos tempos de agricultor nas terras de meu avô. Papai tinha uma elegância inata, sim, natural, dele. E o sorriso, os olhos, o olhar? Ah, mais além, olhos de fé.