segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O dia todinho!

Na verdade ele dizia: "Passa o dia toldinnnn!!" Manduca era uma pessoa que diversificava suas atividades durante o dia. Resolvia problemas caseiros, fazia compras, visitava pessoas, caminhava, lia seus jornais, tirava um cochilo, rezava e não se conformava em nos ver demorando em alguma atividade. Passa o dia toldinnn! Era uma expressão de alerta para que não ficássemos a ver navios e presos ao tédio, preguiça e monotonia. Com certeza se nos visse hoje em dia demorar mais que uma hora no computador, viria com a máxima: Passa o dia toldinnnnn em frente ao computador! Grande sabedoria aquela. Explorar o máximo de possibilidades.

No condomínio verde (casa maravilha da Edith) onde passamos muitos feriados, férias e fins de semanas juntos, fizemos muitas atividades no quintal. Capinar, podar as plantas, limpar o terreno e preparar a terra para o plantio de alguma cultura. Lembro que acompanhei um dos seus projetos de perto. Os projetos das bananeiras. Certa manhã depois do café delicioso de Dona Francisca avistei o Seu Lima munido de pá, rastelo e enxada bem no final do terreno. Perguntei a ele o que ele iria plantar ali. Respirando rápido e com muita ansiedade ele disse: “Toma Newton! Faz um buraco fundo que ôô terreninho pedregoso! Duro rapaz!.” Realmente a terra não era brincadeira. Passei uma manhã quase inteira e os buracos não avançavam tanto.

E ele vinha, voltava, trazia uma garrafa de água, um pouquinho de café. O sol estava pelando! Dona Francisca nos chamou para almoçar. De tarde para minha surpresa ele estava tranqüilo, não demonstrava nenhuma ansiedade, colocou os pés na cadeira e pediu que eu trouxesse as almofadas. Comentou depois em voz alta: "Vamos fazer cinco covas fundas!". Brincando com ele, respondi: “Tem que ter uns quatro ajudantes. Passei o dia toldinnn fazendo buraco!” Ele e dona Francisca sorriram. Passadas algumas semanas retornei ao condomínio para outra temporada. Havia cinco covas bem fundas e prontas para receber o adubo e a terra preparada. Ele contratou alguns trabalhadores para terminar o serviço. Depois de alguns anos saboreamos os deliciosos frutos e continuamos a saborear outros também.

Por: Newton Lima

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Vovozinho - Cabecinha de algodão

Vovozinho. Ou, para mim (e, talvez,para mais alguém) “cabecinha de algodão”. Tão macia, tão cheirosa! Que só de relembrar, o coração aperta. É como se ele estivesse à minha frente e eu a passar e deslizar as mãos sobre sua cabecinha de algodão.

Vovozinho, que sempre chegava à minha casa no tocar rápido de campainha, e nós (eu e o Júnior) falávamos: “aposto que é o vovô!”. E corríamos para abrir a porta e já dizíamos: “Vovô, benção! Tudo bem?” e ele respondia: “Deus te abençoe!”. Mas parecia se sentir envergonhado e não respondia a todas as perguntas, já ia dizendo: “Cadê o Seu Miranda e a Lilinha?” Lilinha era o modo a como se referia à minha mãe, e ela, da mesma forma, assim como outros membros da família, também se refere a mim.

De pronto, já oferecíamos o jornal, antes que se invocasse de sair andando novamente. Falando nisso, como era culto! Como estava interado dos assuntos. Criticava, elogiava, perguntava, em especial, assuntos políticos e econômicos. Eu ficava realmente impressionada.

Quando ele queria ir embora, mas não queria pedir para alguém o levar, já dizia: “então eu já vou”. Um coro respondia instantaneamente: “Não vovô!”; “Não papai, espera! Eu o levo”. “Não vovô, meu pai já vai trabalhar e dá uma carona ao senhor”. Pronto, ficava todo satisfeito. E já ia descendo na frente para analisar o jardim, conversar com os porteiros e ficar ao ar livre. E como sempre, se despedia com a famosa frase: “Seje bem filizzz, minha filha!”. Eu sempre levei tão a sério esta frase, que tomava posse de seus dizeres afirmando fortemente: “Amém, vovô!”.

Certo tempo, quando as orações cominadas com almoço (ou lanche) foram implantadas em nossa família todos os Domingos, era uma alegria para ele e para a vovó. Não sei qual o sentimento exato de cada um, mas estou certa de que pelo menos, a alegria de nos reunirmos prevalecia, e a vontade e o desejo de oração foi tornando-se mais consistente, mais profundo, mesmo após a “partida” do nosso patriarca, como de fato, está até hoje.

Triste? Para nós humanos, demais. Dói muito pensar que não o temos de carne e osso ao nosso convívio. Alegres? Sim, quando estamos investidos do sentimento de cristãos, pois, acreditamos que ele já cumpriu sua missão neste mundo e está junto de Deus, aguardando a hora de cada um para reencontrá-lo. Inclusive, ele foi passar o Natal ao lado do aniversariante (23/12/04). Isto que é privilégio de um homem de fé, puro e inesquecível. Realmente foi um exemplo de cristão.

Nunca vou me esquecer de sua expressão durante as orações. Quando estávamos reunidos em momentos de reflexão e leitura, todos compenetrados; uns de cabeças baixas e olhos fechados; outros olhando para o narrador; outros olhando para cima e eu olhando para cada um, assim como hoje tenho este costume. O engraçado é que sempre que eu passava os olhos ao chegar ao vovô, ele me olhava, arregalava um pouco os olhos e como que se afirmasse um sim, balançava a cabecinha e dava um sorriso encantador. Sempre! E eu retribuía e meu coração ardia. Acho que era uma expressão de amor instantâneo. Era Jesus, na forma de homem, me confortando. =)

Bom, gostaria de compartilhar momentos particulares e de uma visão pessoal minha em relação ao vovô. No fundo, sei que ele está vendo tudo o que estamos fazendo e falando e quero dizer, vovô, que momentos tão simples e do dia-a-dia, ficaram marcados em meu coração, de uma forma muito peculiar. Tenho guardados até hoje seus bilhetinhos e cartões escritos de forma conjunta com a vovó. Sua letrinha tremida e cheia de palavras sinceras e objetivas estão comigo. Amo o senhor! Fique em paz! Amém.

Por: Lílian Miranda Lima

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Vovô e a loteria da vida

Dia de sol, início de férias... nada era melhor do que bater uma bolinha nos gramadinhos da 312N, quando se podia reunir toda galera! Rodrigão, eu, Nando, Binho, Jéfther, Germano, Marcelo Neguinho, Dudu, Diego, Marcinho e até os mestres dos magos, Maurício e Zé. Todo mundo debaixo do escaldante sol brasiliense, achando o máximo jogar o tal do “golzinho”!

Geralmente havia baixas nos “elencos”, mas aquele dia específico estava perfeito: dois times jogando e um “de próxima”. Ô, coisa boa!

Começamos às duas da tarde e terminaríamos quando “desse na telha”, já que o “golzinho” era a brincadeira favorita do pessoal. O legal era que a galera jogava até escurecer o dia (e a sola dos pés descalços...). A diversão era certa!

Lá pelas 3 da tarde, no meio do “clássico” Rodrigo-Neguinho-Diego contra Nando-Binho-Leo, entre os gritos de “Toca, velho!”, “Chuta!” e outros típicos de uma “pelada”, ouve-se um alto e longo chiado:

-“XXXXXXXXXXXXiiiiiiiiiiiitt......XXXXXXXXXXXXiiiiiiiiiitt!!!”

Todos param e olham para os lados, procurando de onde vem aquele som. Que torna a acontecer:

-“XXXXXXXXXXXXiiiiiiiiiiiitt......XXXXXXXXXXXXiiiiiiiiiitt!!!”

Aquele chiado era familiar, então automaticamente olhei para o bloco “C”. Adivinhei...! Lá estava, debaixo do bloco, o Seu Lima com o seu bonezinho azul e o dedo em riste, olhando para o campinho e voltando a chamar:

-“XXXXXXXXXiiiiiiiiitt...Venha cá!”

Pedi licença ao pessoal e fui atender ao pedido do Vovô. Todos olhavam, aguardando que o time se restabelecesse e o futebol continuasse. Então, cheguei ao vovô e perguntei meio ofegante:

-“Oi, vovô, bênção! O senhor precisa de alguma coisa?”

-“Sim, meu filho... queria que você fosse comigo ao comércio, resolver uns negócios. Vamos lá?”

E deu aquele peculiar sorriso...

Olhei para o campinho: todos aguardando, no mesmo lugar onde se encontravam quando o jogo parou. Pensei:

-“Puxa vida... O que o vovô quer resolver lá no comércio, hein?”

Assim, voltei ao campo, pedi substituição, e fui acompanhar o vovô na sua caminhada ao comércio. Na hora fiquei chateado, pois o futebol daquele dia estava muito bom. Quando conseguiríamos reunir os times completos novamente?

Mas logo fui batendo papo com o Seu Lima e a chateação passou. Como era bom conversar com ele!

Achei que fosse comprar pães, ou arrumar um sapato, ir na farmácia, ou algo parecido. Assim, fomos batendo um papo bacana até o comércio da 312N.

Para minha surpresa, o vovô passou pelo comércio da 12 e foi atravessar a pista, em direção à 313N. Perguntei:
-“Ué, vovô... onde estamos indo?”

Ele, com aquele jeitinho peculiar, falou:
-“Fazer um joguinho, né....! Vai que ‘dexta’ vez dá certo!?”

Aí ele tirou do bolso um pedaço de papel amassado, cheio de números, e subiu as escadas do comércio da 313N. Perguntou se eu também não queria fazer uma fezinha, já que se ganhássemos, poderíamos ajudar muita gente! (Grande vovô!)

Então ele tirou um volante da loteria e me deu para que preenchesse, enquanto se encaminhava para a casa lotérica. Enquanto estava lá, pensando se colocava o 36 ou o 47(??), para minha surpresa, vejo o vovô voltando todo apressado. Antes que eu pudesse perguntar alguma coisa, ele disse: -“Vamos embora, Leonardinho... Vamos embora... ‘Exta’ senhorita sempre me dá azar!”

Não me contive e comecei a rir, enquanto o acompanhava de volta ao bloco “C”, escutando “por que” aquela senhorita, funcionária da casa lotérica, dava tanto azar assim.

Voltei ao futebol, mas aquilo não me saía da cabeça. Como é que a coitada da funcionária nunca deu sorte para o meu avô?! (risos)

O engraçado é que, no fundo, tanto o vovô quanto todos já sabiam que o maior prêmio da história já havia sido contemplado muito antes: a linda Dona Francisca e sua linda Família Lima... Haja Mega-Sena acumulada, hein, Vovô...!

Por: Leonardo Daldegan Lima

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Beleza singela

“Bela, tão bonita e tão singela!”, era assim que o vovô cantava quando vinha nos visitar. Isso porque desde abril de 1999 ele era recebido por uma cadela de orelhas compridas, pela cor de chocolate, latido forte e rabo curto, que parecia não caber em si de tanta felicidade. Como de costume, a campainha tocava 10 vezes por segundo sinalizando a impaciência do seu Lima, que queria tomar um cafezinho conosco. E a Bella, tão paciente quanto nossa visita, olhava para a gente com as orelhas em pé, esperando que confirmássemos sua suspeita: “É o vovô, Bella!”.

O encontro dos dois era no mínimo superengraçado. Primeiro, ela ficava sobre as duas patas traseiras e cutucava a mão do vovô com o focinho. E nós quatro chamávamos a atenção dela: “Bella, cuidado para não machucar o vovô!” Depois, ela balançava o rabo frenético, deitava no chão de barriga para cima e então, em uma tentativa frustrada de passar o pé suavemente nela, o querido vô praticamente pisava com sua enorme sandália Rider na Bellinha. E nós quatro: “Vô, cuidado para não machucar a Bella!”

O fato é que os dois achavam o máximo as demonstrações de carinho um do outro. Talvez porque compartilhassem um amor em comum: o Condomínio Verde. A ansiedade, a excitação e a sintonia pareciam ser as mesmas que cada um sentia e poucos compreendiam. Desde pequena, a Bella dava pulos de alegria, latia e chorava quando ouvia a palavra “condomínio”, mesmo que em meio a uma conversa à toa na mesa do café, quando jurávamos que ela não estava prestando atenção. O vovô não deixava de comentar um só dia sobre a casa, as bananeiras, a nova iluminação das ruas, o canto dos pássaros, fora os insistentes pedidos que ele fazia a quem encontrasse e tivesse um carro para leva-lo até lá. Quando os dois estavam juntos naquele santuário, seu Lima não podia ficar mais satisfeito do que ao ver a Bella voltando cheia de lama e mato grudado na orelha. Claro, desde que quem fosse responsável por ela se comprometesse a limpar toda a sujeira do chão branco.

Os cachorros são conhecidos por sua fidelidade, alegria e simplicidade. Quem já teve um desses bichinhos em casa sabe que eles só querem a sua companhia sincera e nada mais. Eles não se importam se está estressado, triste, mal-humorado, desde que fiquem sempre ao seu lado. É possível que o vovô Lima tenha se identificado com a Bella porque transparecia os mesmos sentimentos: era fiel, alegre e simples. Mais do que nunca, esses dois estão para sempre ao lado de quem amam desde que partiram para um “Condomínio Verde” muito maior e especial, aonde nos receberão radiantes.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Histórias do vovô Lima

Como neto e fã incondicional do Seu Lima, é com imenso prazer que venho compartilhar com todos algumas peripécias que vivi ao lado desse grande homem: "o vovô Lima".

Quando morávamos eu e minha família em Florianópolis, Santa Catarina, no bairro Trindade, vovô e vovó nos presentearam com uma temporada em nossa casa. Vovô sempre cheio de disposição, alegria e entusiasmo para qualquer programa e diversão. Jeito único de ser. Quem conheceu lembra-se bem de todos seus trejeitos e manias incomparavelmente únicas e engraçadas...

Numa manhã, como de costume, vovô e vovó acordaram cedo e rezaram uma oração antes de sair do quarto. Seu filho Valner (meu pai) já estava na cozinha esperando para o café. Vovô saiu do quarto logo depois da oração, se dirigiu à cozinha, aonde estava meu pai e disse:
“Bom dia, Zé Valner! Dormiu bem?”
“Bom dia, papai! Vou preparar nosso café! A água já está fervendo...” Vovô dava aquela famosa fungada.
“Espere rapaz! Sua mãe já está vindo fazer o café!”
Meu pai, Valner, então completou: “Não papai! Já estou fazendo...”
Vovô saiu da cozinha indignado em direção ao quarto à procura de minha vó, que carinhosamente ele chamava de Quinha: “Quinhaaa, Quinhaaa... Ô mulher devagar...”

Chegou ao quarto falando "baixinho", mas todos escutavam o que ele dizia:
“Quinha, vá fazer o café porque o Zé Valner já colocou a água para ferver!”
“Calma, homem! Já estou indo!”
“Vá logo!!! Ô homem do café ruim!!!”

Lá ia vovó fazer o café. E todos riam em casa das palavras que Seu Lima falava para Dona Francisca, até meu próprio pai, pois o "baixinho" dele era tão alto que não tinha como deixar de ouvir!

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Eu, Rodrigo, adorava assistir aos programas do Chapolin Colorado e Chaves, que passavam no SBT todas as tardes. Vovô virou meu maior parceiro. Assistia a todos episódios a meu lado. Até fazia uso do bordão, "isso isso isso". Numa destas tardes, assisitimos um episódio do Chapolin com tema de terror, no qual aparecia um homem com um pano na cabeça e fazia uns barulhos do tipo, "Ûuuuu, ûuuuuu"... Vovô dava a fungadinha dele e dizia: "Vixiii, pois mude, menino, mudeee!!!", levantando a mão e apertando os botões do controle num ato de desespero com a cena da TV. Eu colocava novamente no SBT, porque queria continuar assistindo ao programa. Ele se levantava do sofá, e saía dizendo:
"Araaaaaa!!! Vou pro quarto."
Então eu respondia: "Vovô, fica aí!!!"

Mas não adiantava, ele saia zangado e se dirigia pro quarto. Era muito engraçado! Esse momento até hoje me traz alegria da reação tão temerosa de vovô com os fantasmas do episódio. As "almas", como ele dizia.

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Um dia acordei cedo e fui correr na beira-mar norte, em Floripa. Estava treinando para o futebol. Voltando da corrida, normalmente eu tomava banho no banheiro do corredor, mas quando esse estava ocupado, eu me dirigia ao quarto suíte, onde meus avós dormiam. Neste dia, não esperava que teria alguém dentro do banheiro com a porta encostada, então peguei a toalha e entrei no banheiro. Me deparei com a cena mais hilária da minha vida! Vovô estava sentado no vaso lendo seu jornalzinho. No mesmo instante que entrei no banheiro o susto dele foi tamanho que imediatamente ele se tampou com o jornal e gritou:
"Vixiii! Saia daqui meninooooo!"
"Ai, vovô, desculpa!"
Saí correndo rindo pela casa em direção a vovó: "Vovó eu vi vovô sentado no vaso do banheiro!!!"
Vovó achou engraçado, colocou a mão na boca e começou a rir.

Vovô saiu do banheiro fungando em direção à sala e disse:
"Rodriguinho, vou dizer tudo a seu pai! Ô menino sem educação!"
"Vovô, desculpa! Eu não sabia que senhor estava no banheiro, a porta só estava encostada!"
"Não gosteiii!"

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Quando meus pais casaram, foi lhes dado de presente de casamento um crucifixo para abençoar o novo lar. Este crucifixo está com nossa família desde então. Quando nos mudamos para Florianópolis, vovô encontrou o objeto dividido ao meio e encasquetou que teria que arrumá-lo. Cléderson, marido de minha prima Ana Maria, falou ao meu vô que existia um homem que arrumava crucifixos no morro. Mas não sabia exatamente aonde. Apenas que era no morro. Nisto, Ana Maria disse que se meu avô conseguisse arrumar o crucifixo, ela restauraria sua pintura.

Foi o que bastou para que Vovô tivesse uma idéia. Na manhã seguinte, quando todos nós acordamos, sentimos a falta de vovô, que não se encontrava em nenhum lugar da casa. Todos nós ficamos preocupados, principalmente a vovó, que dizia: "Aonde esse homem foi?!"

Meu pai dividiu todos para saírem em busca do Seu Lima pelo bairro. Leonardo, Juliana e eu, cada qual foi para um lugar distinto, todos em busca de Seu Lima. Voltamos para casa depois de algum tempo e nada de achar o vovô. A preocupação só aumentava, fazendo com que nós avisássemos até ao Cléderson e à Ana, achando que poderíamos encontrá-lo por lá. E nada do vovô. Então, quando ninguém mais esperava, eis que surge na porta de casa o Seu Lima, com uma garrafa de sangue de boi de 5 litros no ombro.

Todos nós perguntamos aonde ele estava esse tempo todo. Vovó indagava a ele: “Homem de Deus, aonde você estava e que garrafa é essa?”
Rindo, ele dava a fungadinha básica, passando a mão na cabeça da Vovó: “eu mandei arrumar o crucifixo lá no morro que o Cléderson me indicou e depois fui ao mercado, ora"
Todos nós ficamos de boca aberta, pois ambos lugares eram longes demais e aquela garrafa pesava muito para ele ter trazido a pé durante todo esse destino. Demos rizadas quando ele, bem disposto, disse: “abra essa garrafa, Zé Valner! Vamos tomar logo este vinho!”

Foi uma aventura engraçada de Seu Lima. E hoje o crucifixo encontra-se em perfeito estado no Magestic, casa de meu pai, graças ao Seu lima!

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Vovô e vovó, em dia de sol, foram levados pelo meu pai para a praia do Campeche, no sul da ilha de Florianópolis. Meu pai, querendo agradar o Seu Lima, ofereceu-lhe uma caipirinha. Vovô adorou a idéia e a bebida! Num outro dia, Cléderson convidou a todos nós para irmos à praia de Daniela, no norte da ilha. Ele comentou com o vovô sobre os benefícios da caipirinha, que, por sua vez, concordou, contando a ele sobre o dia em que bebeu a bendita batida de limão com o meu pai. Já na praia da Daniela, vovô deu sua famosa sumidinha, deixando todos novamente muito preocupados, pois ele não conhecia o local.

Depois de muito procurar por ele, saí em busca de locais fora da praia e imaginei que ele pudesse estar num barzinho do outro lado da rua. Não é que de fato o vovô estava lá? Quando cheguei disse a ele: “Vovô! Todos estão procurando pelo senhor!”
Seu Lima, já um pouco empolgado com a caipirinha, pediu ao rapaz do bar: “pois, me veja mais um rapaz!"
Discordei na hora: “Não, vovô! Vamos embora!”
E ele rindo, dizia: “Araaaa! Já estamos indo, menino!”

Ele tomava aquela caipirinha numa satisfação tão grande que chega estralava os beiços! E assim fomos ao encontro da família. Voltando para casa, no carro do Cléderson; vovô falou tudo tão embaralhado que ninguém entendeu aquele dialeto! Quando chegamos em casa, a vovó, rindo com a mão na boca, perguntava: "O que esse homem está dizendo!?"

Foi a cena mais engraçada da coleção de várias de vovô! É um prazer poder contribuir com esse livro em homenagem a ele! São tantas histórias que fica difícil selecionar as melhores para o livro. Meu avô foi um grande homem, de muitas histórias vividas com dignidade e pureza. Nos alegrou com seu jeito simples e único de ser. Ao relembrar alguns desses momentos, nos deixa saudosos e até emocionados. É fácil sorrir com suas histórias, mas difícil amenizar a saudade. A lembrança mais gostosa é quando ele dizia: “Meu Rodriguinhoooo!”

Amo você vovô! Onde você estiver!

Por: Rodrigo Daldegan Lima

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Seu Lima: o contador de histórias

Lembro-me com saudade dos tempos de pequena, no Ceará, da família reunida antes de dormir: Seu Lima, Dona Francisca, e a “reca de menino”: João Batista, o mais velho, o Zé Romildo, o Zé Valner, eu (Lígia), a Conceição, o Tontonho, e o mais novo, o pequeno João José, ainda bebê.

Após a janta, o papai e a mamãe reuniam a prole para rezar o Terço. Era um momento sagrado. Ninguém estava dispensado. Eles “puxavam” e todos respondíamos. Ah, e de joelhos. Ninguém reclamava, e até procurava apressar já pensando na atividade final antes de dormir. Quando terminava a Salve-Rainha falávamos em uníssono: “Bênça Papai do Céu, Bênça Mamãe do Céu”, e em seguida todos corriam para pedir a Bênção dos pais - se revezando uns para o papai e outros para a mamãe e depois vice-versa.

As luzes da cidade eram apagadas às 9 horas da noite, então o clima era propício para aguçar a atenção. Acendia-se a lamparina, e aí pronto, era só sentar nos degraus da porta, ou ali no chão mesmo, dentro de casa. Chegara o momento tão esperado: ouvir as histórias que o Seu Lima contava. Toda noite, a seleta platéia escutava com ansiedade e emoção as belíssimas histórias do papai. Era imperdível. Ninguém dormia até a história terminar.

A mamãe se afastava para uma rede perto dali para fazer o neném dormir, mas também escutava as histórias do papai e as poucas interferências de algum perguntador que queria confirmar se era aquilo mesmo. Mas logo era interrompido pelos outros: “Psiu! Depois você pergunta! Esse minino não entende nada!” Mas logo se voltava ao clima de atenção, silenciando para não perder nadinha da história.

As histórias iam desde “O Pavão Misterioso”, “A Lâmpada Encantada” até histórias de santos. Enfim, era um vasto repertório. Mas o motivo de tanto sucesso era como o papai contava. Ele tinha um talento todo especial, talvez desenvolvido pela necessidade de entreter tanta criança (e porque sempre tinha um neném pra dormir).

Ele unia a entonação de acordo com cada momento da história criando o clima certo. Também fazia a sonoplastia, digna de um Oscar. Até hoje não esqueço da emoção que sentia quando ele imitava o “barulho silencioso” do avião que o João Evangelista inventou para roubar a princesa Creusa, da Turquia. Os olhos de cada um de nós brilhavam que pareciam duas “bilas”. Era um momento de emoção e suspense. Afinal o rapaz tinha se apaixonado pela princesa e precisava entrar no Palácio com esse Invento que ele tinha criado, sem fazer barulho, pois senão o Conde acordava (e ele era muito feroz). Havia muitos guardas armados até os dentes; e ele tinha pouquíssimo tempo para convencer a princesa. Ah, e ainda tinha na manga um lenço com um produto também inventado por ele, que usaria no caso de a princesa se assustar e gritar. Era realmente muita emoção.

Mas às vezes a história surtia uma emoção maior. Certa noite Seu Lima foi contar a história da lenda para escolher um papa. Rezava a lenda que quem passasse embaixo do sino daquela cidade e ele tocasse naquele exato momento, é porque esse homem tinha sido o eleito de Deus para ser o papa.

Estava meu pai nessa altura da história quando, de repente, todos nos assustamos com um barulho de choro. Olhamos apressados para o lado e vimos o Zé Romildo já de pé e aos prantos. A mamãe que estava na rede gritou de lá: “o que fizeram com esse menino? ” Alguém gritou: “É que ele quer ser o papa”. Isso foi o suficiente para os irmãos chamá-lo assim durante grande parte da sua infância.

Muitas e muitas histórias foram contadas pelo meu pai o que contribuiu para enriquecer o nosso imaginário infantil, não só no Ceará, como já em Brasília também. Aqui ele contou histórias vividas e ouvidas no tempo de construção da cidade e principalmente do Presidente Juscelino, que ele teve oportunidade de conhecer. E sempre dizia a frase habitual : “esse é que é o tipo”, logo depois de contar as aventuras verdadeiras e/ou imaginárias dos pioneiros e candangos da época.

Passamos então, a viver outra fase de histórias, quando demonstrava admiração e respeito pela figura do fundador da cidade que ele passou a amar. Eram histórias de coragem e heroísmo e dessa vez, ele também era personagem.

Por: Lígia Lima