sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Vovô e as suas Particularidades

Por Juliana Daldegan Lima (18/01/2009)

As particularidades de Manoel Pereira Lima, ao meu ver, podem ser definidas como características tão dele que qualquer um que o conheceu pode, instantaneamente, relacioná-las à sua pessoa. Essas particularidades são pré-requisito para lembrarmos com carinho e muitos risos das muitas histórias que envolvem o "Seu Lima".

Relacionarei algumas:

1) Todos (ou quase todos) da família levaram o sufixo "inho" no nome carinhosamente acrescentado pelo vovô (Liginha, Ramizinha, Lilinha, Rodriguinho, Bebelzinha, Heitorzinho, Leandrinho, Newtinho, etc.). Quem diria que mesmo quem não é "inho" acabou virando Leonardinho?

2) Como qualquer criança (e o vovô era uma ou pelo menos tinha espírito e pureza de uma) Seu Lima adorava uma novidade. Os netos mais novos talvez não saibam mas eu já presenciei o vovô, algumas vezes, dormindo sobre uma tábua de madeira. Outra mais recente: se alguém não se lembrar, a tia Edith lembra, o vovô foi quem inaugurou e constatou a qualidade por muitas noites do colchão que a tia tinha acabado de comprar...

3) Quem nunca escutou do nosso ilustre protagonista: "Eu quase não dormi esta noite!"? Dona Francisca pelo muito que o conheceu afirmou que no núcleo familiar do vovô (pai, mãe e irmãos) a regra era acordar cedo para trabalhar e dormir demais era, no mínimo, algo muito grave.

4) O silêncio quase reinava e só era interrompido por um grupo de pessoas que cantavam lideradas por Dona Francisca: "...Da flor nasceu Maria, de Maria o Salvador". Mais um mistério do terço começara e o grupo de vozes quase que todas femininas começavam ritmadamente a oração Ave Maria. Mas, convenhamos, qual era a graça rezar o terço sem as esperadas interrupções do vovô? Assim, a oração do terço do bloco C continuou, por muitos anos da mesma forma: o coro tentava concluir a primeira parte da oração enquanto que o vovô já "engatava a primeira marcha": "Santa Maria, Mãe de Deus....".

Enfim, relembrá-lo é algo que nos faz mais felizes a cada dia. Afinal, quem não se orgulha de integrar a descendência de tão singular personalidade?

Vovô querido, não fazemos apenas uma homenagem póstuma ao senhor. Acredito que, assim como eu, a família inteira já declarou ao senhor, em vida, amor incondicional à sua pessoa.

Saudades sentiremos para sempre!

Rastro de Alma

Por Leonardo Daldegan Lima (23/01/2009)

Quarta-feira era o dia mais aguardado da semana, lá pelo ano de 1998. Também pudera, era o dia do sagrado futebol com o pessoal da faculdade, onde a hora do fim do jogo era sempre indeterminada. Todos jogavam à exaustão, muitas vezes entrando pela madrugada.

Como amante do jogo mais popular do país, embora estivesse ansioso pela chegada de mais uma quarta-feira futebolística, estava com o coração partido por um grande motivo: Naquele mês de maio estava recebendo a ilustre visita de meus queridos avós, Seu Lima e Dona Francisca. Como era bom prosear com eles, ouvindo atentamente suas bravas histórias e rindo das engraçadas situações de outrora!

Pois para mim a ida ao futebol naquele dia foi um dilema, já que a participação de todos era sempre esperada, sob pena de não haver dois times completos e, assim, “melar” o jogo.

Dessa forma, então aproximei-me do vovô Lima e perguntei-lhe:

-“Vovô, vou bater uma bolinha com os amigos, mas já volto, tá legal?”.

Sorrindo singelamente, o vovô, como de costume, respondeu:

-“Pois vá, meu filho...pois vá!”

Com a aprovação do vovô e consentimento da vovó, fui jogar meu futebolzinho de quarta*, como um verdadeiro “pinto no lixo”.

Ao chegar no campo, logo bateu um remorso. Pensei:

-“Puxa vida, meus avós vieram de Brasília, passar um tempo conosco, e eu aqui, jogando futebol.”

Logo bateu uma vontade de que a partida terminasse para que eu pudesse voltar a tempo de dar um beijo de boa noite na vovó e no vovô.

Jogo terminado, galera suada e cansada. Tratei de voltar logo para casa, já sabendo que dessa vez o pessoal exagerou: Eram praticamente duas da manhã!

Logicamente, ao chegar em casa, tentei fazer o mínimo de barulho possível, já que meu pai, meus irmãos e meus avós já estavam no “quinto sono”.

Ao entrar no banheiro para tomar um banho, percebi dois fatos: Primeiro, o chuveiro do banheiro do corredor estava queimado. E, Floripa em maio, para quem não conhece, FAZ FRIO! Pensei:

-“Vou tomar banho lá no chuveiro do quarto do vovô e da vovó. Se eu for devagarinho, ninguém vai nem perceber!”

Quando estava abrindo a porta do quarto do vovô e vovó, lembrei-me do outro fato: Estava sem toalha!

As toalhas, por sinal, também ficavam na parte superior do armário, no quarto onde o vovô e a vovó estavam hospedados. Pensei:

-“Agora, o cuidado deve ser redobrado! Além de entrar no quarto para tomar banho, preciso pegar a toalha no armário!”

Adentrei-me no quarto e verifiquei: Vovô e vovó dormindo como anjos, bem tranqüilos. Pensei:

“Ufa, agora é só agilizar!”

Para minha surpresa, ao abrir a porta do armário, o inevitável “ranger” da esquadria rompeu o silêncio daquele ambiente. Peguei a toalha de forma rápida, pendurei-a em minha cabeça e fechei a ruidosa porta. Ai, meu Deus!

Ao olhar para a cama, tomei um grande susto quando vi, em um movimento brusco, um lençol levantando-se com uma pontinha de nariz exposta. Na mesma hora, ouvi:

-“Rudiguin....? É você??”

A maneira como tudo aconteceu foi muito engraçada! Comecei a rir incontrolavelmente e, rindo tanto, não consegui avisar ao lençol – que por sinal era o vovô Lima – que não era o “Rudiguin”. Então, voltou a perguntar:

-“Zé Valdo....? É você??”

Agora a vontade era de cair no chão de tanto rir! E o pior, não conseguia parar de rir e falar para o vovô que era eu, Leonardo!

Para minha maior surpresa, mais uma observação do vovô soou pelo quarto, desta vez, de forma mais “assustada”:

-“Quinha! Quinha! Acho que “ixto” é um rastro de alma! Veja, Quinha!”

Respondeu a vovó:

-“Vá dormir, homem de Deus!”

Com a toalha na cabeça e os músculos da face doendo de tanto rir, saí rapidamente do quarto.

No outro dia, saí cedo de casa para ir à Universidade. Não pude ver o diálogo do vovô com o “Rudiguin” e com meu pai, onde o mesmo dizia não ter gostado de ter ficado assustado com a brincadeira de mau gosto ou de um, ou de outro.

Não entenderam nada, por sinal.

De qualquer forma, duas coisas foram constatadas: Primeiro, banho gelado à noite faz um bem danado! Foi inevitável...

Segundo, ô rastro de alma misterioso!

* A propósito, o futebol era de primeira, mas jogado às quartas!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Palavras

Brasília, 23 de dezembro de 2008
Missa de quatro anos de falecimento do Sr. Lima.
Por Leonardo Daldegan Lima


Palavras, apenas...palavras, pequenas...palavras.

Quantas delas seriam necessárias para descrever quem foi o Seu Lima?

Certamente inúmeras, incontáveis...talvez ficaria o dicionário em dívida conosco.

Porque nem toda a representação gráfica existente seria capaz de explicar, primeiramente, quão bom filho, esposo, pai, avô...fora o Seu Lima.

E mesmo que conseguisse, como explicar o legado deixado por ele a seus filhos, netos, noras, genros e amigos?

O exemplo maior, de união da família em Cristo, com Cristo e em Cristo é, certamente, o maior tesouro da família Lima.

Querido vovô, temos orgulho de termos sido tão privilegiados de poder estar a seu lado, rindo, conversando, rezando, escutando as infinitas histórias da brava vida daquele que, sempre ao lado da linda Dona Francisca, foi o guerreiro-mor da família.

Temos certeza que o sr. está e estará sempre presente em nossos corações, zelando por nossas vidas, nossa batalha do dia-a-dia, tanto nos momentos mais alegres, quanto nos mais difíceis.

Da Dona Francisca à Maria Luiza, saiba que a energia daquele singelo sorriso que o sr. sempre trazia ao rosto e o exemplo do amor em Cristo e da união em família sempre permanecerão conosco, onde quer que estivermos.

As saudades são enormes, no entanto, não maiores do que o valiosíssimo exemplo de vida que o senhor nos deixou. Este sim, traspassará gerações e gerações.

Obrigado, vovô Lima! O sr. é verdadeiramente um “cabra distinto”!

Um beijo de sua família que tanto lhe ama!

domingo, 11 de janeiro de 2009

Sejam bem vindos!

As movimentações para a criação do livro do Seu Lima já começaram! O que não falta é história para contar...!


Friamente calculado

Na casa do Seu Lima havia sempre resquícios do trabalho das mãos trêmulas do vovô. Bastava dar uma volta pela mesa de jantar ou pela poltrona do lado do telefone que eu observava, com um sorriso no rosto, algum papel rabiscado com contas de soma e subtração de números infinitesimais. Ao tentar fazer a prova real daqueles cálculos, cheguei à conclusão que aquilo tudo me parecia uma ordenação maluca de números, uma verdadeira obra de arte de um gênio vaidoso que sequer Picasso poderia copiar. Ou até mesmo corrigir...
Nunca tive a oportunidade de perguntar ao vovô a verdadeira razão daquelas contas e o segredo das respostas encontradas. Afinal, será que aquele exercício teria um sentido maior implícito nas colunas e linhas de números reais?
Acredito plenamente que sim. Verdade seja dita: há mais filosofia em cálculos matemáticos que a nossa vã consciência possa imaginar. Se o resultado da conta está sempre ali, por que quase sempre é tão difícil encontrar as soluções para os nossos problemas? Já dizia o vovô: "Veja bem, Cristo veio à Terra para divulgar os ensinamentos de Deus, nada mais do que o caminho do bem viver. Evangelizou o mundo com uma lei divina que resumia o segredo da vida em um simples verbete: amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo."Às vezes me pergunto por que será que é tão difícil cumprir e respeitar essa lei...
Algo me diz que o Seu Lima sabia as regras do jogo e os segredos da vida. Assim como calculava o total de quinhentos bilhões mais cento e cinquenta e quatro trilhões e uns quebrados, sabia exatamente qual era o caminho para se tornar eterno.
Descobri com o vovô um pequeno atalho para obter as soluções mais complexas, pois a resposta é simples: basta saber procurar. E o nosso gênio calculista achou a felicidade mais plena onde tinha certeza que poderia encontrar, pois na sua fé, no seu caráter e na sua pureza era ele quem mandava.
Dudu


*Criatividade por conta do tio Chico.